A Revolução do Blockchain: Transformando os Alicerces dos Serviços Financeiros 2017-08-25T04:45:10+00:00

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ARTIGO TÉCNICO

A Revolução do Blockchain: Transformando os Alicerces dos Serviços Financeiros

Parece que mais uma vez o gênio tecnológico foi libertado da garrafa. Chamado por uma ou várias pessoas desconhecidas, num momento incerto da história, o gênio está a nossa disposição agora para tentarmos realizar mais uma façanha: a de transformar para melhor o sistema de energia econômica e a velha ordem das relações humanas. Não estamos falando de redes sociais, inteligência artificial, big data, robótica ou carros autônomos. Estamos falando do blockchain, a tecnologia por trás de moedas digitais como Bitcoin. Essa tecnologia representa nada menos do que a segunda geração da internet e tem o potencial de transformar o dinheiro, os negócios, o governo e a sociedade. Expliquemos.

Como a primeira geração da internet foi construída para movimentar e armazenar informações, e não valor, acabou gerando poucas transformações na maneira pela qual fazemos negócios ou acessamos serviços financeiros. Quando você envia uma mensagem eletrônica ou outras informações para alguém, na verdade, você está enviando uma cópia, e não o original. Para a maioria dos tipos de informação, isso basta. Realmente, é uma das maiores vantagens da internet  o fato de termos uma plataforma para a divulgação de informações. No entanto, quando se trata de movimentar, armazenar e gerir valor, poder copiar um ativo é uma má ideia. Afinal, é aceitável ter uma máquina de imprimir informações – mas não uma máquina de imprimir dinheiro.

O papel dos intermediários

Dependemos de intermediários poderosos, tais como bancos, para estabelecer confiança, verificar a identidade das partes envolvidas nas transações e executar a importantíssima lógica empresarial do comércio, desde a compensação e liquidação até a contabilidade e manutenção de registros. Os intermediários financeiros fazem um bom trabalho, mas com algumas limitações. Utilizam servidores centrais, que podem ser hackeados. Agregam custo, tempo e fricção às transações e atividades empresariais. Quando foi a última vez que você enviou um “email cross-border”? A própria ideia é absurda; no entanto, os encargos cobrados para o envio de remessas internacionais podem montar a 10% ou até 20%, e a compensação e liquidação de tais “pagamentos cross-border” podem levar dias.

Os intermediários também capturam nossos dados, impedindo que empresas e pessoas utilizem esses dados para ajudar a gerir suas atividades. Podem potencialmente comprometer a privacidade, expor informações sensíveis e minar a confiança nas empresas. Além do mais, a tecnologia que operam está ultrapassada e grande parte do marco regulatório está igualmente desatualizada. Esses intermediários ainda excluem 2 bilhões de pessoas sem conta bancária porque não conseguem comprovar sua identidade ou não têm dinheiro suficiente para justificar a abertura de uma conta no banco. Em suma, os intermediários capturam uma fatia desproporcional dos benefícios da economia digital, exatamente como o fizeram na economia pré-digital.

A promessa do blockchain: movimentar, armazenar e gerir valor

Entra o blockchain, um vasto livro-razão global distribuído que roda em milhões de dispositivos e é aberto a todos, em que não só informação, mas qualquer coisa de valor – dinheiro, ações, títulos de renda fixa e outros ativos financeiros, escrituras e demais instrumentos jurídicos, música, arte, descobertas científicas, propriedade intelectual, até votos –, pode ser movimentada e armazenada em segurança e com privacidade e em que a confiança é estabelecida não por intermediários poderosos, mas por meio de colaboração massiva e software inteligentemente construído.

Se a internet foi o primeiro formato digital nativo da informação, então o blockchain é o primeiro formato digital nativo do valor – o novo meio para o dinheiro. Atua como livro-razão contábil, banco de dados, notário, sentinela e clearing, sempre por consenso. Embora a tecnologia ainda seja nascente, já detonou uma explosão cambriana de inovações nos serviços financeiros. Por exemplo, os “smart contracts” consistem basicamente em linhas de código que mimetizam a lógica dos contratos em papel, com garantias de execução, cumprimento e pagamento – e em que a confiança pode ser estabelecida por consenso, não por bancos, agentes depositários, advogados e tribunais. A contratação é o alicerce da indústria de serviços financeiros. Em certo sentido, todo ativo financeiro é um contrato que assegura ao detentor algum direito econômico, como participação acionária numa empresa ou rendimentos de um título de dívida. O mesmo princípio vale para muitos outros tipos de ativos e transações, desde contratos de seguro até compras de imóveis, ofertas públicas iniciais (IPOs) e tudo que há entre eles. O setor financeiro pode aproveitar essa tecnologia para tornar os mercados financeiros radicalmente mais eficientes, seguros, inclusivos e transparentes.

Como o blockchain poderá impactar os intermediários financeiros?

Os intermediários financeiros desempenham dez funções essenciais em nossa economia global: autenticação de identidades e reputações, movimentação de valores, armazenamento de valores, acesso a crédito, intercâmbio de valores, captação e investimento de recursos, seguros, gestão de riscos, auditoria e tributação – além de atuarem como bancos centrais responsáveis por políticas monetárias e regulamentação, entre muitas outras coisas. Cada atividade poderá ser transformada por meio do blockchain.

1. Autenticação de identidades e reputações: atualmente, dependemos de agências de classificação de risco, empresas de análise de dados financeiros e bancos de varejo e atacado para estabelecer confiança, verificar identidades em transações e decidir quem merece acesso ao sistema. Em contraste, o próprio blockchain atribui reputação. No blockchain, você é sua própria classificação creditícia. A tecnologia do blockchain reduz e, às vezes, até elimina a necessidade de confiança em certas transações.

2. Sistema de pagamentos: as redes de cartões de pagamento e os serviços de remessas de dinheiro resolvem o problema do gasto duplo, garantindo que nenhum dólar seja gasto duas vezes durante a transferência entre uma pessoa e outra. O blockchain faz isso por consenso na movimentação de quaisquer valores – moedas, ações, títulos de renda fixa e demais instrumentos financeiros –, independentemente do tamanho e da distância, reduzindo dramaticamente a fricção e democratizando o crescimento econômico e a prosperidade.

3. Poupança: os bancos de varejo e atacado, as corretoras e as administradoras de recursos de terceiros são os repositórios de valor. Uma pessoa comum utiliza um cofre ou uma conta de poupança ou conta corrente. As instituições de grande porte utilizam os chamados investimentos livres de risco, tais como fundos de money market (especializados na aplicação de curto prazo em renda fixa e de baixo risco) ou títulos do Tesouro dos EUA (T-bills). A tecnologia do blockchain foi projetada para replicar todos esses instrumentos no modelo peer-to-peer de intercâmbio direto entre pares, sem intermediários.

4. Empréstimos: os bancos de varejo, comerciais e mercantis, ao lado das agências de classificação creditícia e de risco, facilitam a emissão de dívidas de cartões de crédito, hipotecas, títulos de renda fixa privados e de governos municipais, títulos do Tesouro e títulos lastreados em ativos (ABS ou instrumentos de securitização). No blockchain, qualquer um poderá demonstrar sua qualidade creditícia antes de emitir, negociar e liquidar instrumentos de dívida tradicionais diretamente, diminuindo a fricção e aumentando a transparência. Pessoas físicas e jurídicas farão uso de dados ricos sobre si mesmas – verificados pelo blockchain – para atestar sua qualidade creditícia. Dados ricos não são apenas big data, mas dados maiores, melhores e menores, com consentimento informado. Os sem-conta bancária e empreendedores do mundo inteiro poderão ter acesso a empréstimos entre pares.

5. Bolsas: a negociação é a troca de instrumentos financeiros para fins de investimento, especulação, proteção contra riscos (hedging) e arbitragem. Inclui as operações pós-negociação de compensação e liquidação. O blockchain corta o tempo da liquidação das transações para minutos ou segundos, em vez de dias ou semanas. Isso irá reduzir o risco de liquidação, o risco de contraparte e o risco sistêmico. Essa eficiência também gera oportunidades para os sem-conta participarem da criação de riqueza.

6. Capital de risco e investimento: o investimento em ativos ou empresas dá às pessoas físicas a oportunidade de auferir um retorno, seja na forma de valorização do capital, dividendos, juros ou aluguel. A captação de recursos normalmente requer a assistência de bancos de investimento, investidores de capital de risco e advogados, para citar apenas alguns exemplos. O blockchain facilita a captação entre pares por meio de IPOs distribuídos globalmente. A Ethereum, uma plataforma pública de blockchain baseada na tecnologia de contratação inteligente, angariou USD 18 milhões na primeira “ICO” (“Initial Coin Offering”, oferta inicial de moeda blockchain) da história e, agora, já vale mais de USD 4 bilhões. É usada por dúzias de empresas Fortune 500. A Distributed Autonomous Organization, ou DAO, causou sensação ainda maior ao captar USD 165 milhões numa venda global distribuída entre pares (“crowdsale”), em meados de 2016. Por meio da automação do pareamento e da ampliação da captação em escala global, permite a utilização de modelos mais eficientes, transparentes e seguros para o financiamento entre pares. Os serviços incluirão em breve o registro de dividendos e o pagamento de cupons. No segundo trimestre de 2017, o volume de recursos de investimento captado por meio de ICOs ultrapassará o do investimento de risco tradicional (venture capital).

7. Gestão de risco: os gestores de risco tentam proteger pessoas e empresas contra prejuízos ou catástrofes incertos não só por meio da contratação de seguros, mas também pelo uso de inúmeros derivativos criados para servir de hedging contra eventos imprevisíveis ou incontroláveis. Com a negociação de derivativos digitais num blockchain, contrapartes e demais entes interessados, como reguladores, terão uma visão muito mais clara de como o risco está concentrado no sistema.

8. Contabilidade: a contabilidade consiste no registro sistemático e reporte de transações financeiras. Trata-se de uma indústria multibilionária controlada por quatro empresas gigantescas de prestação de serviços contábeis e de auditoria. Entretanto, as práticas contábeis tradicionais não acompanharam a velocidade e complexidade das finanças modernas. O livro-razão distribuído do blockchain visa tornar transparente a atividade de auditoria, possibilitando que seja feita em tempo real e que os reguladores fiscalizem as ações financeiras dentro das empresas mais facilmente.

9. Bancos centrais: considere os papéis dos bancos centrais. Primeiro, gerem a política monetária por meio da determinação de taxas de juros e do controle dos meios de pagamento. Em segundo lugar, tentam manter a estabilidade financeira por meio de injeções de capital no sistema e atuando como emprestadores de última instância. Por fim, ajudam a regular e monitorar o sistema, especialmente o setor de crédito ao consumidor e poupança. Para cada uma dessas funções críticas, o blockchain poderia atuar de modo verdadeiramente revolucionário. Acabar com o dinheiro em espécie reduziria o crime porque o dinheiro digital é mais rastreável e mais difícil de falsificar do que as versões impressas. Os órgãos reguladores financeiros conseguiriam visualizar o funcionamento interno dos maiores intermediários financeiros do mundo, desde bancos até empresas de contabilidade e auditoria. Imagine uma moeda fiduciária integralmente digital que fosse baseada no blockchain e que permitisse aos bancos centrais gerir a política monetária e monitorar o risco no sistema financeiro. A vantagem seria comércio com menos fraude, fricção e vazamento.

Impacto esperado no setor de seguros

As aplicações no setor de seguros são significativas e mostram com excepcional clareza tanto a promessa do blockchain para as grandes seguradoras quanto o perigo que representa para o setor. Considere os possíveis benefícios. Equipadas com vastos conjuntos de dados autênticos e criptograficamente seguros, as seguradoras poderão fazer cálculos atuariais muito mais acurados com relação aos segurados. No setor de saúde, em que as preocupações com relação à liquidez de dados continuam a obstruir a lógica empresarial (para seguradoras, mas também para prestadores, pacientes e médicos), isso poderia ser uma benesse para o setor. A conciliação de bancos de dados entre seguradoras, resseguradoras e demais participantes do setor tornar-se-ia mais ágil e confiável. Os contratos inteligentes não só permitiriam pagamentos sem fricção entre as partes, reduzindo aborrecimentos com documentação em papel e, assim, cortando custos, mas também possibilitariam às seguradoras programar parâmetros em determinadas apólices para que fossem verdadeiramente “apólices inteligentes”: se duas partes tivessem um acidente e ambas tivessem seguro no blockchain, sensores conectadas à Internet das Coisas (Internet of Things, IoT) em cada carro poderiam calcular o pagamento exigido e executá-lo entre pares. Apólices relativas a enchentes ou terremotos poderiam ser vinculadas programaticamente à subida do nível das águas ou à Escala Richter, sendo ativadas quando se chegasse ao nível predeterminado com base em medições de terceiros de confiança, como a NOAA.

Todavia, essas grandes oportunidades virão acompanhadas de grandes riscos. O blockchain também catalisa modelos cooperativos de organização de capacitações – ou seja, associações autônomas formadas e controladas por pessoas que colaboram para satisfazer necessidades comuns. Grupos de pessoas, pequenas empresas e grandes corporações poderiam traduzir sua disposição de cooperar em contabilidade confiável de risco, ativos, habilidades e produtos do trabalho de modo a não só sobrepor-se a plataformas como Uber, Airbnb e TaskRabbit, mas também a desafiar modelos tradicionais de seguro. As pessoas poderiam se organizar para fornecer capital e começar a elaborar apólices por meio de contratos inteligentes que se autoexecutassem. A tecnologia do blockchain torna a construção de plataformas mais barata e gerenciável, fornecendo um banco de dados padronizado comum e contratos padronizados comuns, aumentando a transparência e portabilidade dos dados e reduzindo a necessidade de uso das empresas tradicionais. Entretanto, essas empresas podem aprender a gostar da colaboração massiva e do software de código aberto (open source). Aliás, tal como a decisão da IBM de abraçar o Linux, as seguradoras também podem aproveitar as redes auto-organizadas para cogerar valor ou produzi-lo entre pares.

Considerações finais

Hoje, praticamente todos os principais players no setor de serviços financeiros, desde bancos até seguradoras e empresas de auditoria e serviços profissionais, estão investindo recursos significativos no blockchain. Segundo uma estimativa, quase USD 1,4 bilhão foi investido na tecnologia do blockchain apenas em 2016. No passado, quem financiava as start-ups eram os venture capitalists, mas agora, além desses, podemos ver empresas como Goldman Sachs, Alibaba, Barclays e Tencent fazendo esse tipo de investimento de risco. Isso explica por que mais de 45 bancos de primeira linha, incluindo Credit Suisse, JP Morgan e UBS, decidiram participar do Consórcio R3CEV para desenvolver uma infraestrutura bancária distribuída e por que o Linux lançou o Projeto Hyperledger, associando-se a IBM, Deutsche Bank, DTCC, Grupo London Stock Exchange, Wells Fargo e State Street. Recentemente, vimos o esforço conjunto de Munich Re, Swiss Re, Aegon, Allianz e Zurich de lançar a Blockchain Insurance Industry Initiative (B3i), a primeira iniciativa do tipo no setor de seguros. Também estão no jogo Nasdaq, Nyse, LSE e demais bolsas.

Claro que esta enxurrada de dinheiro para dentro do ecossistema é movida por medo, tanto quanto por gula. O blockchain poderá permitir que os players tradicionais façam mais com menos, ampliando serviços, reduzindo risco e cortando custos. Mas também diminui radicalmente as barreiras de entrada para que novos players criem alternativas ao setor bancário convencional, desafiando os incumbentes em praticamente todos os mercados em que atuam.

Paradoxo da prosperidade

Talvez a maior oportunidade oferecida por essa tecnologia seja a de libertar-nos das garras de um inquietante paradoxo da prosperidade. A economia está crescendo, mas um número menor de pessoas está se beneficiando disso. Em vez de tentar resolver o problema do crescimento da desigualdade social somente por meio da redistribuição, podemos mudar a maneira pela qual se pré-distribui a riqueza – e as oportunidades – de início, já que todas as pessoas, em qualquer lugar, desde agricultores até músicos, podem usar essa tecnologia para compartilhar mais plenamente a riqueza que geram.

As empresas inteligentes participarão plenamente da economia blockchain, em vez de fazer-se de vítimas. No mundo em desenvolvimento, a distribuição da geração de valor (por meio do empreendedorismo e das reservas de talento) e a participação no valor (por meio da propriedade distribuída) poderão ajudar a reconciliar esse paradoxo.

O blockchain não será uma ameaça existencial para as empresas que abraçarem esse novo paradigma tecnológico porque assim elas próprias tomarão posse de sua força disruptiva. A pergunta é: quem no setor de serviços financeiros irá liderar essa revolução de maneira positiva? Em toda a história, os líderes dos velhos paradigmas tiveram dificuldade em abraçar novas tecnologias. Por que a AT&T não lançou o Skype e a Visa não criou o PayPal? A CNN poderia ter construído o Twitter, já que seu enfoque é sobretudo o sound bite, a frase de efeito, não é? A General Motors ou a Hertz poderia ter lançado o Uber e a Marriott poderia ter criado o Airbnb.

Como nas grandes mudanças de paradigma que o precederam, o blockchain criará vencedores e perdedores. Embora as oportunidades abundem, os riscos da disrupção e do deslocamento não devem ser desprezados. Mesmo assim, estamos esperançosos de que os líderes de hoje não serão os perdedores de amanhã, porque há tanta coisa em jogo. Nada poderá deter a força da tecnologia do blockchain e de seu poderoso desafio à infraestrutura das finanças modernas. Gostaríamos que a colisão inevitável transformasse a velha máquina do dinheiro numa plataforma de prosperidade para todos.

Alex Tapscott e Don Tapscott residem em Toronto, no Canadá, e podem ser contatados via Twitter nos endereços @alextapscott e @dtapscott. Seu último livro, Blockchain Revolution: How the Technology Behind Bitcoin is Changing Money, Business, and the World, pode ser comprado na Amazon e na Barnes & Noble no Canadá, nos Estados Unidos e na União Europeia; ou visitando www.blockchain-revolution.com.

Autores

Don Tapscott
Don Tapscott
Cofundador do Blockchain Research Institute
Alex Tapscott
Alex Tapscott
Cofundador do Blockchain Research Institute