Os pregões da Bolsa 2017-08-25T13:04:59+00:00

Project Description

MEMÓRIA DO MERCADO

Os pregões da Bolsa

Como eram os mercados antes da migração para negociação eletrônica

No passado, o pregão era a alma de uma bolsa. Sua razão de ser. Hoje, é preciso procurar no Google o que é um pregão porque a negociação nas bolsas, praticamente em todo o mundo, é feita de maneira eletrônica. O que antes era um cartão postal das bolsas, virou uma recordação.

No dicionário, pregão é o substantivo que designa o ato de apregoar algo que se quer negociar. Essa proclamação em voz alta virou, com o tempo, sinônimo da sala de negociação de bolsa. Durante um bom tempo, pregão foi aquele ambiente colorido e nervoso que rimava com a vida financeira de um país. Um dos símbolos mais fortes de uma economia de mercado.

No decurso da história, a apregoação de mercadorias em determinado espaço tornou-se um dos pilares da construção das economias modernas. As feiras ou os mercados são a expressão mais antiga desses locais de negociação.

A criação das feiras serviu para resolver o problema de distribuição. Nelas, os comerciantes tinham oportunidade para demonstrar seus produtos. Em outras palavras, eram ocasiões para reunir, com certa regularidade, oferta e demanda no mesmo local. A própria essência da economia de mercado.

  • BOVESPA – Bolsa de Valores de São Paulo – Pregão “avião” – Edifício Palácio do Café, Páteo do Colégio – Década de 70

As feiras e os mercados surgiram no Império Romano em 750 a.C. Quando este começou a desintegrar, no final do século 5, o comércio organizado na Europa Central ficou praticamente paralisado por dois séculos, sendo retomado no período de Carlos Magno (também chamado de rei Carlos I, na França), que viveu entre os anos de 742 e 814. A retomada ocorreu particularmente em pontos de grande movimentação, em entroncamentos de estradas ou mesmo em locais de festas religiosas.

Até hoje a realização de feiras, os trade shows, é ponto relevante no fechamento de negócios. A criação de mercados – locais de troca especializados em determinadas mercadorias –também veio para ficar.

O que conhecemos hoje como bolsas e o que eram seus pregões no passado têm suas raízes na criação dessas feiras ou mercados especializados. Na Idade Média, os comerciantes achavam que, além do pagamento em dinheiro vivo, era mais conveniente utilizar crédito para negociar. Crédito exigia documentação, notas de registro e letras de câmbio, bills of exchange, os antepassados dos chamados títulos de valores mobiliários. A negociação dessas letras deu origem a vários mercados na França, regulados por Felipe, o Justo (rei da França entre 1285 e 1314). Ele criou a profissão de courratier de change ou agent de change, os ancestrais dos corretores de valores e mercadorias.

Aproximadamente no mesmo período, na cidade de Bruges, hoje na Bélgica, um rico centro de negócios, a casa da família van der Buerse se tornou um desses locais especializados em negócios. O nome da família, Buerse, ou Bourse em Francês e Bolsa em Português, tornou-se sinônimo de local de negociação, da mesma forma que a palavra exchange na língua inglesa.

Em países de grande tradição comercial, começaram a surgir exchanges ou bourses, como na Holanda, Inglaterra, Dinamarca e Alemanha.

A base do funcionamento do pregão de bolsa é o sistema de leilão. O vendedor apregoa a ordem de venda e o comprador, a de compra. Esse encontro de ordens gera o negócio, que é registrado e divulgado. A organização física dos operadores dentro da sala de negociação, que transmitem para o pregão a ordem do cliente, a forma de registro e a comunicação dessas ordens
evoluíram relativamente pouco com o tempo. De senhores engravatados, com dificuldades para transmitir as informações e registrando os negócios em lousas, os pregões foram se tornando locais com telas luminosas, comunicação sem fio e transmissão de dados em tempo real. Mas o princípio do sistema de leilão ficou relativamente intacto por muito tempo, com algumas variações.

Em Chicago, por exemplo, havia a tradição de se comunicar por meio de sinais com as mãos e de organizar os operadores em “pits”, os locais determinados para a negociação de cada mercadoria. Em São Paulo, também eram usados um pouco os sinais de mãos, mas o que valia mesmo era o grito. Os operadores brasileiros usavam telefones sem fio muito antes dos celulares chegarem ao país e registravam suas ordens a lápis em boletos semelhantes aos cartões de loteria. Leitores automáticos capturavam esses dados e os transformavam em informação, que era transmitida para todo o mercado.

Os “pits” tiveram vez também em São Paulo, mas, durante muito tempo, os pregões pareciam ônibus lotados com operadores se engalfinhando para cumprir as ordens emanadas dos clientes. As jaquetas coloridas também tiveram seu lugar no Brasil, assim como nos pregões de Chicago, dando um visual alegre e emocionante para os pregões.

Tanto em Chicago como em São Paulo, que copiou a ideia dos seus congêneres americanos, havia os “scalpers”, operadores especiais que não eram ligados a corretoras e cuja principal característica era fazer “day-trade”, comprar e vender ativos no mesmo dia. Em Nova Iorque, havia os especialistas, que eram operadores que tinham uma reserva de mercado de determinado conjunto de papéis. O pregão da Bolsa de Nova Iorque possui até hoje os postos de negociação, em torno dos quais se reuniam os especialistas, embora praticamente nenhum negócio seja realizado lá.

Os pregões se tornaram apenas locais de celebração, seja para listagem de uma nova companhia, seja para outro evento ou visita relevante. Agora, como no passado, são centros de referência para as cidades que os abrigam, símbolos do capitalismo e da economia de mercado.

No Rio de Janeiro, que teve a primeira bolsa do país, o primeiro prédio que abrigou seu pregão foi projetado pelo arquiteto francês Grandjean de Montigny, trazido pela família real Portuguesa para o Brasil. O edifício Praça do Comércio, que abriga hoje a Casa França-Brasil no Rio, foi a primeira sede da Bolsa de Valores do Rio e ficou pronto em 1820.

A Bolsa do Rio funcionou também no prédio que fica à rua Primeiro de Março, 66, onde hoje é o Centro Cultural Banco do Brasil. Na mesma rua, a Bolsa ocupou o número 42, onde hoje está o Centro Cultural da Justiça Eleitoral. São dois belos prédios históricos do Rio. O pregão era ocupado por senhores engravatados e de chapéu, em formato de roda. Depois, instalou-se na Praça XV de Novembro, 20, no centro do Rio, onde o pregão foi se modernizando com o passar dos anos. Nesse mesmo endereço, após uma grande reforma, está o edifício que leva o nome de Bolsa do Rio.

A Bolsa de Mercadorias de São Paulo, conhecida como “Bolsinha”, estabeleceu-se em 1917. Em 1936, mudou para a rua Libero Badaró, 443, muito perto de onde é hoje o edifício Bolsa de Mercadorias de São Paulo, que fica no número 471, local do Instituto Educacional da BM&FBOVESPA. Na Líbero 443, o “salão de negócios”, expressão utilizada para denominar o pregão, tinha um balcão circular de madeira, conhecido como corbeille, onde circunspectos senhores de terno e gravata faziam negócios. Enormes lustres pendiam do teto, dando ao pregão um aspecto de salão de baile.

Já na Líbero Badaró 471, a Bolsa de Mercadorias chegou a utilizar tapetes com cores diferentes que demarcavam os espaços para se operar determinada mercadoria. O tapete equivalia às corbeilles. O do café era cinza e o do algodão, branco, por exemplo. Eram três tapetes para cerca de 15 corretores no pregão. Na sua formatação mais recente, os corretores da Bolsinha sentavam-se em uma mesa circular, vazada no meio, formando um “o”. Nessa mesa, que eles chamavam de “redondel” (arena onde são feitas as touradas), ficavam vários telefones em um emaranhado de fios. No centro desse círculo, ficava uma outra mesa, pequena e também redonda, com três terminais transmitindo as cotações.

Em 1922, para comemorar o centenário da Independência, foi inaugurado o prédio da Bolsa Oficial de Café de Santos, no centro dessa cidade portuária, onde hoje funciona o Museu do Café. Suas solenes cadeiras de madeira, que dão uma aparência de igreja ao antigo pregão, estão preservadas até hoje. As imagens do Museu do Café estão disponíveis na web (http://www.museudocafe.org.br).

A Bolsa de Valores de São Paulo sempre funcionou no centro histórico da cidade, em vários endereços. Firmou-se em 1934 no Pátio do Colégio, no edifício que se chamava Palácio do Café. Suas instalações ocuparam o mezanino, o saguão e o porão do imponente prédio, onde hoje está o Tribunal de Justiça.

Em 1967, a BOVESPA abandonou a corbeille, dando lugar ao que os corretores chamavam de “avião”, um longo balcão em formato de “u”, com o diretor de pregão na ponta, que comandava os negócios com voz grave e formal. Posteriormente, o “avião” deu lugar aos postos de negociação. No mezanino, já havia um “aquário” para que os visitantes pudessem observar as negociações.

Em 1972, a BOVESPA mudou-se para a rua Álvares Penteado, 151, ocupando um prédio comprado do Banco Mercantil, o Edifício Gastão Vidigal. Esse edifício foi inteiramente reformado. Painéis eletrônicos começaram a funcionar, substituindo as lousas de pedra, nas quais os preços eram registrados com giz. Hoje, esse edifício é da Associação dos Advogados de São Paulo (AASP). O que era o pregão se tornou um auditório.

Após conquistar a liderança do mercado de ações no início dos anos 1980, e, em consequência, uma confortável situação financeira, a BOVESPA adquiriu vários imóveis no centro de cidade, entre os quais o edifício do Banco Comind na rua XV de Novembro, 275, sede da Bolsa de São Paulo desde 1989. Esse pregão chegou a ter mais de mil operadores trabalhando.

O antigo pregão da BOVESPA, hoje denominado Espaço Raymundo Magliano Filho, é um centro de visitação. O horário de funcionamento é de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h. A visita monitorada é gratuita, tem duas horas de duração e inclui atrativos como: palestra, cinema 3D, Centro de Memória e Café da Bolsa, além da simulação do funcionamento do mercado, um dos destaques do roteiro. A simulação mostra aos visitantes, de maneira interativa, como funcionam as negociações entre os investidores e as corretoras nos dias de hoje. As visitas podem ser agendadas pela internet (http://educacional.bmfbovespa.com.br/visitas).

A Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) teve seu primeiro pregão na Praça Antônio Prado, 48, onde hoje é a sede da B3, a partir de 1986. Trata-se de um edifício histórico de São Paulo, projetado inicialmente por Ramos de Azevedo, e que já foi ocupado pela Light, pelo jornal O Estado de S. Paulo e pelo Citibank. Inicialmente, seu pregão funcionava onde é hoje a recepção do prédio e o Espaço Cultural.

Quando completou 10 anos de vida, a Bolsa comprou o prédio vizinho, na rua João Brícola, erguido no final do século 19 e tombado pelo patrimônio histórico. A fachada foi mantida, mas o interior foi totalmente refeito. Foi construído um novo pregão, três andares abaixo da atual recepção. Esse novo pregão começou a funcionar em 31 de janeiro de 2000.

Esse sistema muito tradicional de compra e venda através de pregões começou a ser fortemente desregulamentado pelos reguladores norte-americanos a partir de meados dos anos 1970, com o avanço da tecnologia, o que foi rapidamente se espalhando por todo o mundo.

A bolsa norte-americana Nasdaq levou para as telas do computador em 1978 o sistema de “market maker”, formador de mercado que sempre possui uma oferta de compra e de venda para um determinado ativo. Trata-se de uma prática corriqueira de mercados de balcão, que são mercados abertos e não fechados em um local de negociação, como uma bolsa. Nas bolsas, o sistema mais tradicional sempre foi o de leilão, de apregoação da ordem do cliente. Isso provocou uma revolução, que acabou levando toda a negociação para os ambientes eletrônicos.

Em 1990, a Bovespa ingressou no mundo da negociação eletrônica, com o sistema Computer Assisted Trading System (CATS), que operava simultaneamente com o sistema tradicional de pregão de viva voz. Em 1997, foi implantado novo sistema de negociação eletrônica, o Mega Bolsa, mais avançado. Em 1999, a Bovespa lançou o Home Broker, que permite ao investidor, por meio do site das corretoras na internet, transmitir sua ordem de compra ou de venda diretamente ao sistema de negociação. Em setembro de 2005, a Bovespa passou a funcionar apenas com as negociações eletrônicas, encerrando as atividades do pregão viva-voz.

A BM&F lançou no ano 2000 sua plataforma eletrônica de negociação, o Global Trading System (GTS). Passou a utilizar o PUMA, desenvolvido em parceria com a CME, em 2011. A BM&F encerrou seu pregão viva-voz em junho de 2009. O PUMA absorveu também as negociações de ações em 2015.

Não deixa de ser curioso que, dentre as várias técnicas modernas de negociação, esteja a chamada de “tape reading”, literalmente “leitura da fita”. No passado, a principal forma de transmissão de dados era o “ticker”, que produzia uma fita perfurada que, “traduzida”, informava as cotações de pregão. Hoje, o tape reading, também conhecido por leitura ou análise de fluxo de ordens, é uma técnica na qual os investidores acompanham a leitura dos negócios fechados, juntamente com a dinâmica do “book” de ofertas, que vem a ser o conjunto de todas as ofertas disponíveis no mercado naquele momento.

O objetivo dessa leitura é identificar mudanças nos movimentos dos preços, provocados pelos grandes investidores, e conseguir, com isso, aproveitar essa mudança se posicionando na mesma direção, seguindo o fluxo de movimento dos preços.

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