Mais fácil, mais simples 2017-12-19T23:46:01+00:00

Project Description

Entrevista

Mais fácil, mais simples

A segunda fase do Projeto de Integração da Pós-Negociação (IPN), chamada pelo mercado de IPN V2, foi concluída no dia 28 de agosto, às 6:00. A segunda fase consistiu na migração das operações dos mercados de renda variável e renda fixa privada para a clearing multiativos, que já contava com o segmento de derivativos. Trata-se de um dos maiores projetos de infraestrutura de mercado já realizado no mundo.

Com esta nova migração, R$ 21 bilhões de capital de colateral foram devolvidos para o mercado, com a preservação completa dos sistemas de segurança da clearing. Somadas a primeira fase, ocorrida em 2014, e a segunda do IPN, chega-se ao total de R$ 41 bilhões de capital de colateral devolvidos ao mercado.

A B3 contava com quatro clearings herdadas da BM&FBOVESPA para os mercados de ações, derivativos, câmbio e títulos públicos.

A clearing multiativos tem uma capacidade para gerenciar 10 milhões de transações por dia e permite que os participantes dos seus mercados sejam mantidos informados dos requisitos de risco e margem de garantia em tempo real ao longo de todo o funcionamento do mercado. Com mais esta etapa de migração, a B3 e seus participantes modernizam e simplificam suas infraestruturas tecnológicas e também reduzem os custos de middle e back office com uma maior padronização de regras, processos e rotinas.

Na primeira fase do projeto, ocorrida em 2014, o registro, a compensação, a liquidação e o gerenciamento de risco de operações com derivativos financeiros e de commodities, mercado de balcão (swaps, termo de moeda e opções flexíveis) e mercado a vista de ouro migraram para a clearing multiativos.

Para falar sobre essa ocasião histórica para a B3 e para o mercado, a Resenha convidou 5 especialistas, listados abaixo em ordem alfabética:

Eduardo Borro, do Itaú BBA, COO da Itaú Corretora de Valores, presidente da Câmara Consultiva da BSM e integrante da Câmara Consultiva de Operações da B3;

Everaldo Araújo de Oliveira, presidente da corretora CM Capital Markets, integrante da Câmara Consultiva de Operações da B3 e membro do Comitê de Gestão Financeira da Associação BM&FBOVESPA;

Landulpho Profili, head de Futures & Options do JP Morgan;

Leonardo Chaves, managing diretor da ICAP do Brasil CTVM;

Milena Weiss Aloisi, managing director da corretora do Credit Suisse, COO de equities para América Latina, presidente da Câmara Consultiva de Pós-Negociação da B3 e vice-presidente da Câmara Consultiva da BSM, e

Sérgio Amancio da Silva, superintendente de operações da ICAP do Brasil CTVM e integrante da Câmara Consultiva de Pós-Negociação da B3.

Eduardo, Everaldo e Milena deram a entrevista juntos. Leonardo e Sergio conversaram com a Resenha em uma segunda rodada. Finalmente, foi realizada a entrevista com Landulpho. Como as entrevistas seguiram o mesmo roteiro de perguntas, as respostas foram editadas em conjunto. Segue a entrevista:

Milena Weiss Aloisi,
diretora da corretora do Credit Suisse

RESENHA – Gostaria que vocês começassem pela análise da janela única para liquidação dos negócios, a liquidação pelo netting.

MILENA – Para os clientes, obviamente, ficou muito mais lógico, mais prático e mais eficiente. Antes, muitas vezes, os clientes, brokers e administradores de fundos, como pagadores e recebedores da clearing, tinham de pagar e receber no mesmo dia. Havia casos de fundos de investimentos que ficavam esperando receber, por exemplo, um ajuste de derivativos, para poder pagar uma compra de ações.

Havia casos de fundos de investimentos que ficavam esperando receber, por exemplo, um ajuste de derivativos, para poder pagar uma compra de ações. Também sempre existia uma questão de risco no horário desses pagamentos. Então, sem dúvida, agora são maiores as eficiências e a segurança para o mercado – o que, obviamente, requer menor tempo e, também, menor esforço de todos os participantes.

EDUARDO -É uma economia bem grande de pessoas. É uma diminuição, uma mitigação de risco enorme. A questão do espaçamento das janelas de liquidação trazia preocupação para todos, não só para os brokers, mas para a cadeia como um todo.

Eduardo Borro,
do Itaú BBA, COO da Itaú Corretora de Valores, presidente da Câmara Consultiva da BSM e integrante da Câmara Consultiva de Operações da B3;

O tempo que a gente perdia com as liquidações, com os batimentos, com as efetivas transações entre as corretoras, custodiantes e administradores, isso diminui bastante com essa novidade. Eu acho que, de longe, esse foi o primeiro grande benefício que veio com a integração das clearings.

Everaldo Araújo de Oliveira, 
presidente da corretora CM Capital Markets, integrante da Câmara Consultiva de Operações da B3 e membro do Comitê de Gestão Financeira da Associação BM&FBOVESPA

EVERALDO – A meu ver as coisas devem ser simples. A liquidação pelo net reflete essa simplicidade e a lógica do que deveria ser antes disso. Também entendo que não era assim antes por outras razões, preocupações e uma questão de prioridade, mas todos sabiam que isso iria acontecer. Agora, temos algo muito mais inteligente. Do lado das empresas, você tem uma economia de homens/hora e consegue dirimir risco, consegue alocar tanto as pessoas quanto os recursos que eram separados para um eventual problema de descasamento e que hoje pode ser destinado ao negócio e ao crescimento. No passado, era preciso ter uma reserva de dinheiro e de pessoas para dar conta das janelas de liquidação. Agora, com a unificação temos economia e eficiência.

SERGIO – Foi um grande ganho, porque até pouco tempo atrás a gente tinha duas contas, duas formas de liquidação com banco, duas janelas, dois horários. Você tinha que gerenciar esses dois fluxos financeiros, eram descasados os horários. Você acabava tendo gente ali, tendo que ficar focado nesses dois momentos para providenciar o financeiro dessas liquidações. Então realmente facilitou de forma significativa. Tanto para o cliente como para nós do operacional.

LEONARDO – A eficiência operacional é muito grande.

Sérgio Amancio da Silva,
superintendente de operações da ICAP do Brasil CTVM e integrante da Câmara Consultiva de Pós-Negociação da B3.

Landulpho Profili,
head de Futures & Options do JP Morgan;

LANDULPHO – Foram vários benefícios. Quando a gente olha para trás, eu tinha dois fluxos de liquidação para o mesmo cliente. Isso comprometia não só a liquidez do cliente, mas muitas vezes a própria liquidez da corretora. Então, todo esse netting que se dá na janela única ajudou tremendamente o mercado. Existiam muitas discussões regulatórias quanto a adiantar recurso para o cliente, não ter recebido, enfim, muita discussão interna, muito ruído que acabou agora. O sistema fica menos oneroso. Você tinha que manter mais recursos que, na verdade, você não conseguia utilizar.

No momento em que você não precisa mais manter esses recursos por conta da unificação, os recursos passam a ter outro tipo de uso, tanto para os corretores quanto para os clientes. Quando você olha a ordem de grandeza do que foi devolvido ao mercado, ela é muito grande. Existem grandes expectativas se esse dinheiro retorna como investimento.

RESENHA – Vocês podem dar exemplos de como era e como ficou?

EDUARDO – Basicamente, um cliente que tinha um ajuste para pagar em derivativos e uma venda de ações tinha que trazer o dinheiro para pagar a corretora até às 14hs, e receber o dinheiro da venda de ações somente por volta de 16h.

EVERALDO – As pessoas eram especialistas em um sistema especifico, e por conta disso o quadro de funcionários era muito grande e algumas vezes duplicado.

Leonardo Chaves,
managing diretor da ICAP do Brasil CTVM;

MILENA – Agora, esse cliente liquida pelo netting.

EDUARDO – Se paga dez em derivativos e tem a receber cinco em ações, paga cinco para a corretora e acabou.

EVERALDO – Quando não era pelo net, você tinha todo um arcabouço, toda uma estrutura, sistemas apartados para poder fazer as liquidações separadas. Não fazia muito sentido.

RESENHA – Vamos falar de eficiência no backoffice, em geral. Gostaríamos que vocês abordassem livremente alguns temas, como alocação, garantias, cobertura de posições e os processos em geral, assim como o próprio papel dos participantes.

SERGIO – Nesse primeiro momento, a gente acabou se deparando um pouco com uma dificuldade geral porque entraram pessoas que não faziam parte da cadeia. Por exemplo, custodiante não era tão ativo como é hoje, com uma série de validações. Era muito passivo. Recebia muita coisa pós, por exemplo, vindo de um BTC. Ele não tinha intervenção. Hoje isso acabou trazendo alguma dificuldade, pelo menos neste início de adaptação. A gente tem sentido que alguns processos ficaram mais morosos. Mas, no geral, há um ganho de qualidade e velocidade. Na ICAP, tínhamos tudo muito automatizado. Mas ocorreram algumas coisas que mudaram tão significativamente a forma de fazer que estamos descontinuando uma ferramenta para refazê-la em outro formato. Mas, de forma geral, teve um ganho significativo. Ainda estamos numa fase em que não conseguimos medir de forma bem específica porque há um processo de aculturamento. Todo mundo está se readaptando nisso.

LEONARDO – Cada um vai ter uma particularidade. Particularidade da ICAP é que a gente não usa o Sinacor somente direto, puro e simples. A gente tem o Sinacor, que é a base de tudo, mas a gente tem um sistema interno próprio. Então, como o projeto era muito grande e todo esse sistema interno ia ter que ser mudado, algumas coisas foram continuadas até o meio que o final da fase de implementação. Agora, a gente ainda vai ter que reconstruir algumas coisas. Até hoje a gente está ali se adaptando às mudanças. A gente tem ainda um período de ajuste para poder ainda internamente vivenciar toda essa eficiência. Mas no mercado em si é visível.

LANDULPHO – Quando a gente olhou benefícios em termos das janelas de liquidação, é óbvio que é o primeiro que a gente consegue pensar de maneira rápida porque existe alívio de capital, seja do cliente ou seja das corretoras. Agora, diminuição de custos operacionais é tão importante no final da linha, quanto isso. Então, por exemplo, a gente, no momento que as Bolsas se fundiram lá atrás, nós não tínhamos experimentado nenhum tipo de avanço em relação às estruturas. Você quase tinha que ter times dobrados em relação às suas liquidações. Então, por exemplo, tinham times nossos trabalhando pela liquidação de BOVESPA, times nossos trabalhando pela liquidação de BM&F, times nossos falando de alocação na parte de BOVESPA, times nossos falando de alocação na parte de BM&F e assim por diante. Então, você tinha estruturas duplicadas. Agora, você realmente começa a olhar a estrutura e começa a criar um processo de fábrica constante, mais fácil, mais simples de lidar. A Bolsa trabalhou bastante, front to back, em relação a como harmonizar a mensageria na parte de negociação e aí depois colocando tudo dentro do mesmo ambiente de pós-negociação, colocando tudo dentro do, possivelmente, no novo datacenter. Quando você começa a ter uma linguagem só, uma camada só, uma estrutura só, isso daí facilita e cria um benefício operacional. Hoje, a gente está organizando tudo, reorganizando toda a estrutura operacional de backoffice, middle e o que tem por trás, de uma maneia única e simplista. É muito diferente, por exemplo, do que a gente tem no resto do mundo. Isso daí cria uma eficiência.

RESENHA – Vocês acreditam que, em função dessa mudança de infraestrutura, haverá também alterações no papel dos participantes? Os participantes vão se reposicionar dentro do mercado com as mudanças que aconteceram?

MILENA – Isso já aconteceu, os participantes já se posicionaram quanto ao seu papel no mercado. E, sem dúvida, tem eficiência, que – na minha opinião – não é totalmente imediata. Foi um trabalho longo: a maioria dos participantes já unificou seus sistemas, processos e equipes. No entanto, acredito que a migração ainda está em andamento. Nós migramos a clearing, mas os processos ainda estão sendo migrados. Os clientes também estão avaliando como, quando e qual será a melhor forma de migrar. Não é uma migração que ocorre no dia da virada. Ela vai ocorrer durante mais um ou dois anos, pelo menos – como ocorreu no segmento de derivativos. Os clientes vêm se adaptando e entendendo o novo modelo. Aos poucos, essa eficiência vai alcançando todos os elos da cadeia. Tínhamos dois processos completamente diferentes, modelos de negócios diferentes. Agora, o modelo de negócio de dois segmentos está sendo modificado, digamos assim. Obviamente, haverá um único processo – tanto nas corretoras quanto nos carryings – que carregará essas posições.

EDUARDO – Talvez aí esteja a grande diferença do tempo que se gastou na V2 e na V1 dentro desse projeto chamado IPN, que era o fato de a V1 trazer a realidade do segmento BM&F, de derivativos, para um mundo que já era o dele. A V2 traz o desafio de inserir o mundo de ações para uma cabeça de BM&F. Então, para aquele participante que tinha uma característica muito forte, um background de BOVESPA, a realidade de BM&F é meio difícil de digerir. Para aqueles que já estão nos dois mundos, isso se torna muito mais fácil. De todos os benefícios que vieram, ou que virão na V2, talvez o maior, além da questão da eficiência das garantias, é a questão da possibilidade de atuação de corretoras especializadas em carrying no segmento BOVESPA. Isso diminui de uma forma exponencial todo o trabalho dentro da cadeia.

RESENHA – Você podia explicar melhor?

EDUARDO – Imagine que você é uma asset e opera em dez corretoras distintas. Dentro dos sistemas da própria B3, depois de 40 minutos, a boleta que você executou em qualquer uma dessas corretoras é repassada para o carrying broker, para uma única corretora. Dependendo da rotina de especificações, você pode ter uma leitura online do risco após esses 40 minutos. Você consegue simulações precisas em cima das suas posições, das garantias que poderiam ser exigidas em função de uma operação ou de outra. E o grande ganho é que, ao final do dia, ao invés de você ter que entrar corretora a corretora para fazer as alocações, todas as boletas estão numa única, que é o carrying broker, e, desta forma, com o envio de um único arquivo, todas as alocações do dia são efetuadas. O custodiante vai liquidar no D3 com uma única corretora, reduzindo o esforço em toda a cadeia.

MILENA – O fato principal é que você está segregando a execução da liquidação. É similar ao modelo já existente no Exterior. Não é exatamente igual, porque o modelo brasileiro envolve a questão de beneficiário final, mas de qualquer forma você está segregando os papéis. Tem um participante puramente executor que não carrega risco e um – digamos – “liquidante” que é o carrying, ou seja, quem carrega o risco da liquidação daquele cliente. Assim, você separa os papéis.

EVERALDO – A segmentação dos serviços deixa as caixinhas mais limpas de quem é o carrying, quem está disposto e pode ser carrying, e quem é o execution, quem pode, tem condições e quer ser execution, que era uma coisa que, no passado, estava misturada. Por exemplo, eu sou uma corretora 100% independente. O que acontece? Com a simplificação de todo o processo, fica muito mais fácil e faz com que a corretora decida, de uma vez por todas, que segmento ela quer tomar como core business do seu negócio, sem deixar confuso para o tomador final que é o cliente. É claro que vai haver alguns conglomerados que vão conseguir atender todos os serviços, mas todos nós aqui sabemos que a história nem sempre foi assim. Houve algumas instituições que não tinham essa condição, ainda assim se dispuseram a fazer o serviço e acabavam, de certa forma, passando a imagem errada para o cliente de como deveriam ser feitas as coisas corretas.

RESENHA – Quais são as oportunidades de negócio que se abrem a partir disso?

EVERALDO – As coisas eram muito misturadas na oferta de produtos. Do meu ponto de vista, se perdia eficiência porque se gastava um tempo enorme para convencer o cliente de que o melhor lugar para se fazer, ter acesso à Bolsa, vamos chamar assim, era nessa ou naquela instituição.

EDUARDO – A mudança proporciona aos clientes maior liberdade na escolha do broker, sem grande preocupação com capacidade financeira. Existem muitas corretoras com excelente qualidade no serviço e outras especializadas em determinados nichos que muitas vezes são penalizadas por não terem patrimônio adequado para atender determinados tamanhos de clientes. Como o risco passa a estar centralizado no carrying, este ponto deixa de ser um grande problema.

EVERALDO – Essas casas, muitas vezes, têm expertise em um determinado nicho. Fica muito caro para um conglomerado ter que competir com isso achando que vai conseguir eficiência naquele nicho e não tem a expertise.

RESENHA – Como vocês falaram, a V2 do IPN aprofundou a questão da especialização na atuação das corretoras. Passou a existir no segmento de ações o que já havia no de derivativos, o repasse de operações de uma corretora que fez a execução da ordem para outra que fará a liquidação e a custódia. Poderiam abordar isso em mais detalhe?

SERGIO – No segmento BOVESPA existia o investidor qualificado, que já tinha um relacionamento direto com o banco custodiante. Com a unificação de tudo e já com o repasse implementado, o segmento de ações passou a ter essa mesma oportunidade. Qual é o lado ruim? A introdução do repasse não deveria representar uma pressão sobre as margens das corretoras. Cada corretora, executando sua tarefa ou de executante, ou de carrying, tem que seguir cobrando o cliente.

LANDULPHO – Acho que essa é uma das coisas mais emblemáticas para o mercado. É muito simples uma pessoa que vem do lado do segmento de futuros entender como funciona o tema de repasse, aqui ou lá fora. É difícil quando você diz que o segmento de ações passa a ser liquidado como um futuro, apesar de ser um ativo real e o futuro não ser um ativo real. Aí essa operação liquidada tem a mesma característica de um futuro, então pode ser repassada. Você acaba tendo o benefício da consolidação do portfólio, então usa uma estrutura de carrying, que antes não existia no segmento BOVESPA. Você cria uma oportunidade de negócio que a gente está buscando e cria uma otimização para o cliente.

RESENHA – Eu gostaria que vocês abordassem a questão de otimização de equipes e de processos em função da unificação das clearings.

MILENA – Implementamos a V1 em 2014. De lá para cá, já temos feito essa adaptação, o que envolve passar da completa segregação para um pouco de troca dentro dessas equipes. Mesmo já tendo iniciado esse processo a algum tempo, acredito que veremos mais claramente essa melhoria, essa otimização, daqui em diante quando temos em nosso dia a dia um único processo com otimizações e ganho de escala. Para isso, os clientes devem se adaptar e migrar para esse novo modelo. Sendo assim, no estágio atual houve muito investimento, mas ainda não temos todos os ganhos operacionais; isso virá com o tempo.

EDUARDO – Acho que as esteiras operacionais tendem a se encontrar em vários pontos de intersecção daqui para a frente e isso traz a necessidade de uma homogeneização das equipes. Surge a necessidade de profissionais com expertise em BOVESPA e em BM&F porque as facilidades que o CORE traz exigirão tal skill. Isso traz uma riqueza para o mercado e para o profissional. Penso que a gente tende a ter um profissional mais qualificado daqui para a frente, com visão mais abrangente do mercado e acho que isso não necessariamente tende à redução de equipes e sim traz novas oportunidades. O mercado é muito carente de criatividade e de novos serviços com qualidade. Abre-se um espaço para profissionais que pensam fora da caixa e em prover melhores experiências aos clientes.

EVERALDO – Eu, na contramão de economizar funcionários, contratei mais gente. Com a preocupação do risco, fui ao mercado e contratei um profissional especializado, que já me criou telas e fica observando e me antecipando qualquer movimento ou ligação da Bolsa.

SERGIO – Como a gente, ao longo do tempo, foi se automatizando, não sentiu essa questão de pessoal nessa largada. A gente, ao longo do tempo, foi se preparando, desenvolvendo ferramentas e teve um ganho operacional nosso, interno, em torno de 50% na área de backoffice nos últimos sete, oito anos. Agora, para a V2 do IPN, especificamente, não sei, porque a gente já tinha feito esse trabalho com sistemas internos e uma boa parte deles a gente conseguiu migrar.

LEONARDO – A gente vem fazendo um trabalho de automação porque só assim se consegue ter eficiência operacional maior no backoffice. Talvez o segundo pulo do gato pós IPN seja a implementação total do repasse. Como vai ficar mais simples o processo, acho que há mais um ganho porque teve essa nova eficiência.

RESENHA – Como está a comunicação com os clientes?

EVERALDO – As instituições participantes da Bolsa estavam muito atualizadas com a situação. Em compensação, os clientes deixaram para fazer isso na última semana. Me arrisco a dizer que alguns ainda estão descobrindo como as coisas vão ser.

EDUARDO – É exatamente isso. A gente percebe que tem muitos clientes, falando agora de clearing, deixando para tomar a decisão de aderir. “Não quero ser o primeiro a pular nessa piscina”, eles dizem.

MILENA – Essa é a frase mais ouvida.

EVERALDO – Vale chamar a atenção disso.

MILENA – Na V1, o processo foi muito transparente para os clientes. Eles não perceberam nada, porque o modelo de negócios não mudou. O que era repasse continuou sendo repasse. Houve mudança para nós, corretores, e também na bolsa. O nosso grande desafio na V2 era descobrir como fazer os clientes perceberem que o modelo de negócios havia mudado – ou seja, antes eles tinham o investidor qualificado, agora eles têm o repasse. Mudou o BTC, que não impactava o qualificado e, agora, impacta ao carrying. Como passar todos esses conceitos para o cliente? É uma questão muito técnica, nada simples. Mesmo com esse trabalho por mais de um ano, percebemos, nessas últimas semanas, que alguns conhecem, mas ainda estão esperando. E outros ainda têm muitas dúvidas. Mesmo que se entenda o conceito, quando se tenta perceber até que ponto isso vai mudar meu dia a dia ou o que eu devo fazer diferente, muitos ainda têm dificuldades. Acho isso natural, considerando-se o tamanho da mudança. Estamos num período de adaptação.

RESENHA – O que mudou no BTC para vocês e para o cliente? Vocês poderiam se aprofundar nisso?

MILENA – Todo mundo manteve o foco na alocação, no repasse e assim por diante, deixando o BTC um pouco de lado. Agora, sentimos o preço disso. A grande mudança do BTC é que passou a ser liquidado também pelo net, junto com as demais operações de ações e derivativos. Entra na mesma janela de liquidação. Os clientes finais, na minha opinião, não perceberam tanto, apesar de termos falado muito sobre isso. Se você falha a entrega de uma liquidação de BTC por exemplo, você incorre nas multas da venda e, assim, gera uma pendência. A liquidação entra como uma venda, o que é uma grande mudança.

RESENHA – Era um mundo à parte, certo?

MILENA – Era um mundo apartado com 100% de liquidação bruta – e deixou de ser. Nas primeiras semanas, houve mais pendências e problemas de adaptação de fluxo. Você tem todo um fluxo que vem antes da devolução. Quando eu devolvo o aluguel? Que tipo de informação eu preciso ver, para devolver um aluguel? Eu sempre olhava o que estava na minha carteira no momento da devolução; agora eu também devo ver o que vai liquidar amanhã, porque a devolução de BTC passou a entrar no net da liquidação em D+1. Então, o que eu vou liquidar amanhã conta o que entra de compra, o que entra de venda e novos aluguéis. Há uma dinâmica diferente. Mudou a vida do cliente final, um backoffice de fundo por exemplo, que não se atentou a esse ponto e, quando chegou na segunda-feira, não sabia mais o que devolver. Este é um dos principais pontos. De qualquer forma, eu acho positiva essa evolução do BTC para net porque traz segurança para os doadores. Quanto mais conseguirmos embutir algum tipo de segurança no BTC, maior será o número de investidores e participantes nesse mundo.

SERGIO – Basicamente, do ponto de vista operacional, que acompanho mais de perto, achei que a eficiência ficou melhor porque não tenho mais dois mercados para se tratar separadamente, que era isso que acontecia na prática, embora fosse todo de ações, mas você tinha dois mercados. Eram totalmente descolados, as formas de vencimento, a forma de liquidação eram todas descoladas do que acontecia com ações. Hoje, com esse casamento da janela, facilitou o trâmite operacional, sem dúvida, porque casa tudo. Tenho uma pendência única. Antigamente, podia ter uma pendência no papel e gerar outra pendência no BTC, que gerava uma recompra, podiam ser duas recompras. Facilitou significativamente. O que a gente ainda está sofrendo é com o aculturamento. Porque aí o cliente precisa entender.

EVERALDO – Esse produto era muito concentrado em poucas casas. Era basicamente um produto de balcão que se registrava na Bolsa. Então, por isso, o “esquecimento”.

EDUARDO – Especialistas nisso.

EVERALDO – Sim. Isso não é ruim, mas fica difícil dar transparência para um mercado com tão poucos participantes. De alguma forma, o pessoal vai se organizar e isso vai se tornar mais transparente e vai dar até oportunidade para outras corretoras participarem.

EDUARDO – De uma forma geral, o BTC é um ponto que ficou alguns passos atrás na V2, o que merece uma discussão mais aprofundada do mercado. Alguns desconfortos pré-existentes continuam e alguns novos surgiram pós V2.

RESENHA – Você acha que o produto precisa de aperfeiçoamento, então?

EDUARDO – Precisa bastante.

RESENHA – Além da questão do BTC, como a V2 do IPN deve impactar o restante da cadeia, como as assets, por exemplo?

LANDULPHO – Eu acho que, de novo, ter um ambiente, ter uma possibilidade de diminuir o custo operacional, porque o mais sensível de todos são as assets, sobretudo as menores, o fato de a pessoas poder escolher um carrying broker, independentemente da estratégia que tenha, diminui o custo operacional. O fato de ele ter mais capital de volta no seu caixa pode gerar um momento no qual se pode buscar mais alfa nas carteiras, reinvestindo no mercado local. Sobretudo agora que os juros estão chegando a níveis menores e, parece, vão ficar assim por um longo tempo. Então há uma necessidade de o investidor se mexer. Todo o feedback que nos foi dado foi extremamente positivo. Não vi ninguém dizer “não gostei da mudança”, ou “a mudança me causou algum desconforto”.  Acho que alguns participantes ainda não sentiram, porque ainda pode ser que alguém não tenha se atentado para o total benefício. De novo, volto no processo de educação, naquilo do que vai acontecer. Sem dúvida também é novo para os clientes estrangeiros e também, de novo, creio que é um processo de educação do que está acontecendo. Mas penso que rapidamente equaliza.

RESENHA – Uma das principais novidades da V2 do IPN foi a aceitação de garantias no exterior para todos os mercados. Essa possibilidade agora é de até 8% do total das garantias depositadas. Isso é importante para o mercado? Vai trazer mais participantes de fora?

MILENA – É muito importante, porém tenho dúvidas se traz novos participantes num primeiro momento. De qualquer forma aumenta a flexibilidade e o tamanho dos investidores já atuantes. A forma como a regra foi imposta não é de fácil operacionalização, e eu entendo essa dificuldade. É um pouco complicado administrar um limite que varia todos os dias, mas, sem dúvida, há benefício. Eu considero um grande benefício para alguns estrangeiros que fazem operações no Brasil e enfrentam enormes dificuldades para comprar títulos públicos aqui. De novo, é uma questão de adaptação e de entendimento da regra. O processo ocorrerá a cada três meses. Nessa primeira leva, provavelmente entrarão os investidores atuais que já usam esse benefício; e, aos poucos, essa regra vai sendo mais bem entendida, até porque ela é complexa.

EVERALDO – São os estrangeiros que já participam que vão poder usar isso, pois são os que têm mais conhecimento, mesmo com a dificuldade extra de explicar como funciona. Fazer uma venda dessa regra para novos investidores e tentar aumentar essa base, já acho mais difícil. O momento não é esse e acho que isso não vai chamar tanto a atenção agora. Mas é importantíssimo ter isso montado.

EDUARDO – Foi um passo superimportante. Acredito que, de alguma forma, é lógico que tem uma curva de aprendizado aqui, mas, na linha do tempo, tende a haver o conhecimento por parte de novos investidores que talvez ainda não tenham tanto conforto de mandar o dinheiro para cá. Acho que a facilidade de poder manter essa garantia fora traz sim um sentimento de mais segurança. Acho que os ajustes no operacional vão acontecendo conforme a demanda do próprio produto.

LEONARDO – É um pedido antigo do mercado que teve resistência grande do Banco Central, principalmente em razão do setor de câmbio. Havia um medo de especulação, ainda mais pelos vai e vens que a gente teve de volatilidade de moeda e incertezas políticas e tudo mais. Por enquanto, esse percentual de 8% do total é uma coisa que funciona, mas ninguém sabe o tamanho que vai ser pedido pelos clientes ou quanto isso pode gerar de novos negócios de clientes estrangeiros que hoje não acessam por não querer ter o risco de fronteira cambial. Dependendo dos volumes de mercado e da dinâmica daqui para a frente, isso pode se esgotar muito cedo. E obviamente a expectativa é que isso se esgote mesmo e que o Banco Central e a própria B3 consigam ter uma eficiência e agilidade para que esse limite suba diante da necessidade do mercado. Mas ainda é muito cedo para ver.

LANDULPHO – O pleito das garantias no Exterior é antigo. Existe a parte ótima e a parte que eu acho que é um processo de adequação. A parte ótima é a gente imaginava que fosse ser mais restrito e não foi. O regulador olhou de maneira distinta, quer entendendo como funciona, como é a demanda, como que é que é a expectativa, como são os fluxos, como o mercado se ajusta, para entender se 8% é um número razoável. É óbvio que, se você perguntar a qualquer participante, sejam as corretoras ou sejam os clientes, o número de 8% parece ser pequeno. Sobre um aumento de clientes por conta disso, sim, a gente já vem tendo essa demanda, imagino que as outras corretoras, também. A gente viu aumento de demanda de clientes que tinham determinado valores no Brasil e pediram aumento. Quando se olha, isso reflete um giro e um volume novo, que antes não existia. Talvez existisse nos mercados de balcão lá fora e houve uma migração? Talvez. Talvez seja um aumento real? Talvez. Ainda está um pouco cedo para dizer exatamente o que é.

RESENHA – Uma pergunta sobre o CORE, o sistema de gerenciamento de risco. Em função da unificação da clearing e do uso do CORE, houve uma devolução de garantias para o mercado. Vocês acham que isso traz mais volume? Vocês acham que vem mais cliente para o mercado por conta disso?

MILENA – Neste primeiro momento, sim, o CORE trouxe grandes ganhos e pode trazer maior volume ao mercado. De qualquer forma, o CORE ainda pode evoluir mais. É um primeiro momento, e ainda tem algumas posturas conservadoras para evoluir dentro do que o CORE tem de sinergia e do que resultou nesses ganhos de margem. Em algumas operações bem específicas, como o cash and carry e arbitragens, de menor risco e maior volume, o CORE ajuda muito. Para operações que dependem mais do apetite de risco, há outros fatores no mercado que farão diferença para aumentar os volumes.

EDUARDO – Eu acho superpositivo. Acho que o CORE afeta mais determinados nichos do mercado do que outros. Mas, de uma maneira geral, custo de capital é sempre um problema nas operações. Sempre um entrave. A nossa vida tem ficado cada vez mais difícil. Acho que sempre é positivo quando se tem essa possibilidade de diminuição das garantias do capital que se usa para o negócio. E eu acho que parte dela tende sim a voltar para o próprio negócio.

EVERALDO – Acredito que parte desses recursos será revertido para novos investimentos ou para alavancagem de outros a partir de 2018 porque, de novo, as pessoas ainda estão sendo informadas de como funciona. Para determinados produtos, isso não deve acontecer e não ter nenhum reflexo, mas em outros sim.

LEONARDO – Eu acho que tudo que a Bolsa faça para que tenha uma segurança operacional, uma eficiência operacional, implementação tecnológica, tudo isso é positivo. Vem aí a mudança do datacenter que vai dar uma capacidade tecnológica maior. Acho que hoje a Bolsa vem fazendo esses níveis de investimento e isso tem refletido em melhoras. Veja, por exemplo, quando temos esses picos de volume de R$ 10 bilhões, a gente não tem visto atraso em sistema. O CORE é uma evolução no lado da devolução de garantas. É uma devolução inteligente, que se pode usar para novas operações.

LANDULPHO – Bom, a gente participou intensamente da discussão sobre o CORE. Então, desde o início a gente avaliou como superpositiva a nova metodologia. Quando se começa a olhar a questão do portfólio do cliente, quais são os riscos inerentes a ele, como se ajuda a fazer o encerramento das posições de forma ordenada, visando a não criar um estresse indevido no mercado, e faz isso de uma forma saudável, isso foi único. É fato que assim a Bolsa se beneficia pelo ambiente que tem e assim, acho que são poucos os lugares no mundo, tem esse mais um, que acho que é a África do Sul, onde há um ambiente único com uma clearing. Então, se consegue realmente integrar e criar uma análise de portfólio como existe, por exemplo, nos EUA com o prime broker. Você olha o portfólio do cliente, verifica qual é o estresse do portfólio, qual é a margem que se está chamando, isso foi, sem dúvida, saudável. Lembrando que até pouco tempo atrás tínhamos a chamada de margem nas duas pontas, tanto da Câmara de Ações, quanto na Câmara de Futuros. Quando se olha no momento seguinte uma conta só, uma liquidação só, um netting só, um portfólio só, uma estratégia de risco única e uma chamada de margem sobre aquele portfólio, a resultante disso é muito benéfica. Da maneira como a gente avalia o CORE, é uma solução extremamente bem pensada, extremamente bem-feita e bem calculada.

RESENHA – Vocês poderiam comparar a clearing da B3 com outras clearings e o CORE com exemplos fora do Brasil?

MILENA – O modelo brasileiro é muito diferente. No exterior, na maioria das vezes, não há janelas, multas, e regras claras de recompra. Aqui, o modelo – desde o beneficiário final até a liquidação – é muito mais complexo. O que há de melhor aqui? A clearing integrada de produtos. Não há essa integração que existe no Brasil em outros países, esses benefícios só existem aqui.

LANDULPHO – Até onde sei, no presente momento, não tem nada parecido, fora a África do Sul. Normalmente, não há um ambiente de futuros e de ações liquidando na mesma clearing. É difícil falar que existe alguma outra Bolsa que consiga replicar a estrutura da B3. Mas existem algumas particularidades dos modelos no Brasil em relação ao resto do mundo. Aqui a Bolsa chama a margem exatamente do cliente e não da corretora. Essa diferença causa impactos em balanço. O balanço das corretoras no Brasil é muito menos pesado do que é lá fora. É complexo fazer comparações. Por exemplo, a gente olha a margem da CME, você tem a margem, depois a margem adicional, depois aquilo que é colocado aos membros de compensação. A contribuição do membro de compensação nesses outros mercados é muito maior do que, por exemplo, a gente tem aqui. Por justas razões, por diferentes razões. Então, é comparável? Não. É um modelo interessante de como aliar a estratégica de se desfazer do portfólio de cliente? Sim. Pessoalmente não vi nenhum outro lugar que tenha, mas não conheço o modelo de todas as Bolsas, alguma coisa parecida com a metodologia do CORE, de olhar quais são os picos de liquidez do mercado, visualização da posição e você realmente determinar qual deveria ser o ajuste correto, a maneira correta de se encerrar aquele portfólio.

RESENHA – Com a introdução do IPN V2, passou a ser utilizada mensageria para 100% dos processos? Qual é a avaliação de vocês a respeito?

MILENA – Este é o caminho. Precisamos de processos mais eficientes. Acho que falamos pouco da Câmara Consultiva de Pós-Trading. Creio que passamos 80% ou mais do nosso tempo lá discutindo como ter processos mais eficientes. Ainda temos aqui no Brasil processos via e-mail, por exemplo, o que não faz mais sentido. Estamos tentando levar o setor a adotar, aos poucos, uma mensageria, algo mais eficiente que já existe no exterior. A maneira como, por exemplo, eu confirmo meus clientes locais é completamente diferente da forma como eu confirmo meus clientes estrangeiros. Os estrangeiros usam sistemas de mensageria para confirmação. Aqui no Brasil, isso ainda não acontece tanto. Talvez por questão de custo de desenvolvimento e da cultura de mercado, na minha opinião. Tudo o que fizermos para aumentar a eficiência e adotar a mensageria ou outros meios eficientes, vale muito a pena. O lado ruim disso é que, querendo ou não, tudo isso gera custo. Dependendo do momento de mercado, existe uma certa resistência contra gerar custos para o processo, que engloba toda a cadeia da liquidação: o custodiante, o administrador, o corretor e o cliente. É mais difícil engajar todo mundo, mas este é um caminho sem volta.

EVERALDO – As coisas já deviam ter nascido assim. Como representante de uma corretora independente, admito que era muito ruim, pois o passado de grande parte das independentes não era assim. A Bolsa teve dificuldade de reeducar essas instituições para essa realidade.

EDUARDO – A segurança que a mensageria agrega é tremenda. É uma coisa que, mais à frente, quando fizermos uma retrospectiva, vamos falar: “Como a gente não fazia assim?”

SERGIO – Acho que essa evolução do sistema, de forma geral, é a questão de processamento, velocidade. Quando há um upgrade em linguagem, sistema e metodologia de desenvolvimento, tudo impacta em melhora na execução. A gente já usava muita coisa em paralelo com a Bolsa, ainda que não fosse uma coisa padronizada exatamente para suportar essa falta de automação que havia em algumas outras pontas. E isso se somando ao que foi feito no IPN, realmente deu qualidade e dá segurança.

LEONARDO – Esse foi um dos maiores gargalos, até para dar conta da evolução nos volumes. Se não fizesse essa automação, qualquer aumento importante de volume iria bater nesse gargalo operacional de final do dia e processamento intradiário.

LANDULPHO – Essa automação otimiza muita coisa aqui dentro. É óbvio que tem sempre o lado contrário porque antigamente, como era manual, havia a flexibilidade de mudança, se ocorria alguma situação especial, que a Bolsa pudesse aprovar. Hoje em dia temos tudo por mensageria, tudo fica mais amarrado. Diminui a quantidade de erros operacionais. Mas, ao mesmo tempo, se há um problema, o sistema engessa. Mas, ainda assim, é muito mais positivo do que qualquer outra coisa.

RESENHA – Gostaria de falar de passado, presente e futuro. Quando começou o processo, qual era a maior preocupação de vocês, qual foi a maior dificuldade ao longo da unificação das clearings e quais são, na visão de vocês, os maiores desafios daqui para diante?

MILENA – O maior desafio no passado era o tamanho dessa implantação. Falando agora um pouco do Credit Suisse, o banco tem sistemas proprietários desenvolvidos internamente. O nosso grande desafio e nossa maior preocupação consistiam em desenvolver tudo que seria necessário em tempo hábil. Tínhamos de entender o processo de gerir o que estava se passando ali, trocar com a Bolsa todo esse conhecimento, os possíveis impactos daquilo, o que funcionava e o que não funcionava. Desde a concepção até o que foi implantado, muita coisa mudou com essa troca entre corretoras e Bolsa. E precisávamos implementar isso internamente, com equipes enxutas – ninguém, nesse momento do mercado, tinha gente sobrando. Este foi o grande desafio para as instituições. Durante a implantação em si, o grande desafio foi saber a hora certa de virar a chave. Era um processo no qual trabalhamos em parceria com a Bolsa. Saber qual era a hora certa e segura de dizer: “Agora pode implantar a nova clearing, pois estamos seguros”. Provavelmente houve este tipo de conversa em todas as instituições. A Bolsa fez esse acompanhamento com todos os participantes. Futuramente, o grande desafio será trazer os grandes clientes para esse modelo. Um pouco do que a gente já falou.

EVERALDO – Meu comentário é exatamente na linha da Milena. Acho que a aderência e, antes disso, a interface, foi um dos maiores desafios. Interface é uma coisa que não tem jeito. É um ser humano que tem que interpretar aquilo e transformar em sistema. Sempre lembrando que o diferencial que as empresas têm com o cliente é o sistema delas.

EDUARDO – Acho que, a princípio, quando a gente começou, o grande problema era o medo do desconhecido. Qual o tamanho que isso tem? Quanto isso vai custar? Qual é o investimento que eu vou ter que ter nisso? Essas eram as grandes perguntas pelo lado do banco. A gente precisava mensurar tudo isso e colocar num orçamento aceitável pela administração do banco. Isso foi uma grande dificuldade. Acho que depois do início da implantação, talvez, uma das grandes dificuldades foi o entendimento homogêneo do mercado para aquelas questões específicas. O engajamento de toda a comunidade num projeto único que dependia de todos estarem colaborando, principalmente na produção paralela para que a coisa pudesse andar e os problemas serem identificados. Esse foi um grande problema. E, talvez, a questão das postergações. Porque havia um time alocado em tecnologia para tratar aquele projeto que, a todo momento que havia uma postergação, não se podia abrir mão daquele capacity porque já era um time especializado, já conhecia o projeto. Então, te onerava ainda mais porque éramos obrigados a manter o time pronto e aquecido. Muitas vezes eram times de terceiros que não podíamos abrir mão sob o risco destes profissionais serem alocados em outros projetos. A definição da data da virada da chave também foi uma questão. Ter a clara visão de que o mercado realmente estava pronto, o receio dos problemas que surgiam, que poderiam surgir ainda à frente trazia apreensão a todos. Para a frente, fica o desafio de demonstrar e comprovar para todo o mercado, de uma maneira geral, os benefícios que o projeto nos trouxe e ainda nos trará.

LEONARDO – Quando o processo foi anunciado, todo mundo encarou de forma muito natural depois da desmutualização das Bolsas e da fusão. Deveria se buscar essa eficiência que o IPN está gerando. Isso foi muito natural. Obviamente que, ao longo desse processo, viu-se qual o tamanho do problema que era fazer isso. Era um belo abacaxi para descascar. Um dos maiores problemas sempre foi questão de pessoal e investimento, tanto em tempo quanto em dinheiro, porque isso demandava muito. Na V1 do IPN, a gente teve que dobrar equipes. Outra preocupação que começou logo cedo foi com atrasos no projeto porque você segue com o dobro de equipe, o tempo e o estresse dos adiamentos. Quando você tem envolvidos, sei lá, 70 ou mais participantes nesse processo e você precisa que todos testem e todos façam validações porque o sistema não pode ter uma ruptura no dia do lançamento da implementação, é muito complicado. Então, esse desafio de gente, de gestão de tempo, gestão de pessoas e adiamento de processo, foi um dos maiores desgastes. Porque o resto é desgaste do dia a dia. Quanto aos próximos desafios, penso que é seguir num avanço tecnológico com novas implementações, como o datacenter, essa integração com a CETIP.

LANDULPHO – A Bolsa tem um mérito grande, fora a competência, de ter colocado tudo isso em pé. Foi um projeto front to back. Você pode usar todas as terminologias bonitinhas porque foram utilizadas. No meu caso pessoal, não falando em nome do JP, eu imaginava como é que você ia colocar os riscos? Como é que você separava os riscos? Como você estava adicionando riscos de clientes diferentes dentro de um ambiente só? Essas eram as maiores dúvidas que o mercado tinha e eu tinha na largada. Acho que, depois que começou a se desenhar o CORE, desenhar como iam funcionar as salvaguardas da Bolsa, como iam proteger os clientes, as corretoras, os membros de compensação, a cadeia como um todo. Como ia funcionar a dinâmica de mercado, tudo isso veio sendo construído ao longo do tempo e o mérito da Bolsa é de ser persistente e obstinada. Mais do que persistente, eu acho que obstinada. Porque os caras conseguiram levar o projeto até o final. Óbvio, modifica daqui, puxa dali, entende como é que funciona, não funciona, o que o mercado entendia, como não entendia. Eu acho que assim, um grande mérito deles terem, ao longo do tempo, entendendo o que eles queriam, que o mercado queria, como podia fazer, como podiam se adaptar às duas partes e essa foi a chave do sucesso. Resultou numa CCP única, que tem uma proteção jurídica, uma proteção institucional da própria Bolsa. O skin on the game da Bolsa dentro da estrutura inteira é um diferencial. Então a hora que você olha isso, não só a Bolsa está colocando talvez uma ideia, entre aspas, maluca, mas ela está participando e participando com capital próprio. Isso deu também muita credibilidade dentro da análise total. Acho que o mérito e a grande discussão da V1, que era o maior problema, como é que você ia fazer, como é que eram as mudanças. Ali foi todo o pano de fundo para a V2. Tanto é que a V2 foi mais extensa porque você realmente estava colocando um ativo ou, por falta de palavra melhor, um animal dentro de uma jaula que não parecia pertencer a ele. Você dizia para todo mundo que as ações iriam ser liquidadas como futuros. Eu dizia para os meus chefes lá fora e eles me olhavam, “como assim?” E aí entrava toda a explicação. Eu acho que esse foi o momento-chave. Foi um projeto muito grande, foi inteligente da maneira como prepararam os planos de maneira que houvesse menor impacto. Acho que todo esse trabalho feito ao longo do tempo foi bem executado. Acho que surpreendeu todo mundo. É óbvio que não foi fácil para ninguém e exigiu de todo mundo, da Bolsa e dos outros participantes, ter que fazer testes e testes e mais testes para mostrar para o próprio Banco Central que o sistema era bom, o sistema era confiável, que o sistema funcionava, que o que o CORE estava dizendo que ia acontecer. Foi impressionante. Quanto ao futuro, tem ainda o projeto de passar a liquidação de D+3 para D+2, que já aconteceu lá fora, e um dia, quem sabe, o D+1. Acho que o próximo passo, que é a Câmara de Câmbio dentro dessa estrutura, vai ser tão desafiador ou complexo. Aí realmente você passa a ter uma estrutura única funcional. Esse é o maior desafio que eu vejo hoje para a Bolsa.

RESENHA – Gostaria de abordar agora, para terminar, a questão de mercados de balcão e de Bolsa. Lá fora, houve toda uma discussão a respeito disso, levar os mercados de balcão para CCPs. A infraestrutura que se montou agora, unindo BM&FBOVESPA com a CETIP na B3, facilita muito isso, não? Como é que vocês veem essa questão especificamente?

EDUARDO – Eu acho ótimo se a gente conseguir fazer isso, contanto que sejam guardadas as características do balcão. Há uma preocupação grande do mercado para que se mantenha essa cultura do balcão ainda viva, aliada, lógico, a toda a segurança que o modelo que hoje a B3 oferece. Esse é o grande desafio. Caminhar para a modernidade, mantendo a maturidade que alcançamos ao longo dos anos no que diz respeito a controle de riscos.

EVERALDO – Esse equilíbrio precisa ser encontrado. Eu acho que isso merece um ponto de discussão específico.

MILENA – Sim, facilita com certeza. Acredito que operações de balcão com CCP tem muito para evoluir, e a união da BM&FBOVESPA com a CETIP deve ajudar muito nisso. Mas, de qualquer forma, a demanda do balcão sem CCP continuará existindo. Ter ou não ter a CCP, diferentemente do registro da operação, deve ser uma opção disponível.

LEONARDO – A Bolsa e a CETIP são dois corpos diferentes, de dois mercados diferentes em que alguns produtos vão poder ser migrados para CCP, outros não vão fazer sentido e até melhor para o mercado que fique com o mercado de balcão igual à CETIP. Acho que a CETIP tem um ganho tecnológico a ser dado enorme com os sistemas da Bolsa.

LANDULPHO – Acho que essa pergunta é a mais complexa até agora. Eu te digo complexa porque, quando a gente pensa na B3, o balcão tem um alto valor em relação ao que era flexibilidade, como os negócios eram registrados. Da mesma forma que com, com a CCP, qual é o risco que você estava retirando do mercado, tendo a clearing como sua contraparte. E aí você olha o que está acontecendo lá fora e parece que tudo aquilo que era bilateral, balcão, está andando um dia para ser cleared, inclusive com ajustes. Então, o desafio da B3 é harmonizar essas questões. É óbvio que, quando a gente está falando lá fora daquilo que é cleared em balcão, são contratos padronizados. Então, entre ter o contrato padronizado, e colocar na Bolsa, acho que esse é o mais fácil. Os outros, que não são padronizados, fica mais complicado. Como é que a gente vai por isso no CORE? Como é que vai medir o risco? Eu acho que aí você tem um desafio. Mas eu acho que certamente tem um benefício grande em estar numa CCP, ter o seu contrato registrado na CCP liquidado, colocado no portfólio.