Daniel Kahneman – Prêmio Nobel de Economia 2017-08-25T13:04:01+00:00

Project Description

Entrevista

Daniel Kahneman
Prêmio Nobel de Economia

O erro humano

Em 2002, Daniel Kahneman ganhou o Prêmio Nobel de Economia. Isso foi particularmente incomum porque Kahneman é um psicólogo. Junto com seu amigo Amos Tversky, que morreu em 1996, aos 59 anos, a dupla de psicólogos desmantelou a ideia de racionalidade econômica. A irracionalidade humana é seu grande tema.

Há três fases em sua carreira. Na primeira, ele e Tversky fizeram uma série de experimentos engenhosos que revelaram “preconceitos cognitivos” – erros inconscientes de raciocínio que distorcem nosso julgamento do mundo. Na segunda fase, a dupla mostrou que as pessoas que tomam decisões em condições de incerteza não se comportam da maneira que os modelos econômicos tradicionalmente previam. Os dois, então, desenvolveram um relato sobre como as pessoas tomam decisões, mais fiel à psicologia humana, que eles chamaram de “teoria das perspectivas” (prospect theory). Foi por essa conquista que Kahneman recebeu o Nobel. Na terceira fase de sua carreira, principalmente após a morte de Tversky, Kahneman mergulhou no estudo da felicidade, sua natureza e suas causas.

Seu best-seller Rápido e devagar: duas formas de pensar (Thinking fast and slow) abrange todas estas fases. É um livro imperdível. Denso, profundo, cheio de surpresas intelectuais, bem-humorado, como seu autor, e tocante, especialmente quando Kahneman fala de sua colaboração com seu amigo
Tversky. “O prazer que encontramos em trabalhar juntos nos tornou excepcionalmente pacientes. É muito mais fácil lutar pela perfeição quando você nunca está entediado.”

Nesta entrevista à Resenha, Kahneman passeia pelas suas principais ideias, de como elas podem afetar a nossa vida pessoal, a vida financeira, o mercado e a política. “A psicologia pode ser muito útil para ajudar a planejar a experiência social. Quando as reformas econômicas fracassam, a principal razão é que qualquer reforma gera vencedores e perdedores. Os perdedores lutam muito mais do que os potenciais vencedores. Em consequência disso, para obter qualquer resultado tem de se compensar os perdedores. Tipicamente o custo disso é alto, algo que os planejadores não anteviram.”

Kahneman é um dos principais convidados do Congresso Internacional de Mercados Financeiro e de Capitais, que ocorre em agosto. Confira abaixo sua entrevista.

RESENHA – O que deveríamos saber a respeito de como a psicologia afeta a economia e, sobretudo, as decisões financeiras?

KAHNEMAN – É quase uma disciplina mista de psicologia social e economia comportamental. Todos são chamados de economistas comportamentais, mas na verdade aplicam a psicologia à tomada de decisões financeiras e outras atividades econômicas. O campo já existe e muitas contribuições advêm de algumas outras áreas. As mais importantes advêm da psicologia social e da psicologia do julgamento. Outra fonte de informações relevantes é a literatura sobre julgamento e o processo decisório. Essas são as duas principais fontes de influência sobre a economia comportamental e as aplicações da economia comportamental nas políticas públicas.

RESENHA – O que torna as questões psicológicas relevantes para as políticas públicas?

KAHNEMAN – Dizem que as políticas públicas interagem com os cidadãos e que a maneira pela qual os cidadãos se comportam e agem é relevante para o governo. É considerada relevante qualquer coisa que o governo possa fazer para que as pessoas ajam melhor em seu próprio interesse. Acontece que a psicologia é muito útil para criar as ferramentas para isso. Deixe-me dar um exemplo. Digamos que haja um benefício que esteja disponível para pessoas desempregadas. Muitos dos próprios beneficiários desconhecem esses benefícios. Há espaço para a psicologia em termos de como formular as mensagens, como conscientizar as pessoas a respeito das oportunidades disponíveis e como orientá-las a tomar as decisões que realmente sejam em seu melhor interesse. Esse é só um exemplo dentre muitos.

RESENHA – Por que temos de ir mais devagar ao tomar grandes decisões? Poderia explicar muito resumidamente a ideia do “sistema 1” e “sistema 2” em relação a decisões?

KAHNEMAN – Em meu livro Rápido e devagar: duas formas de pensar (Thinking fast and slow), fiz uma distinção entre duas maneiras de funcionamento da mente, na verdade. Uma maneira, que é chamada de sistema 1, é rápida, automática e mais emocional, fazendo muito uso da associação de ideais. O sistema 2 é mais lento e reflexivo, envolvendo mais esforço. Falo das interações entre esses dois sistemas. Nenhum deles é perfeito. Ambos são muito bons naquilo que fazem. Precisa ler o livro para saber como interagem e contribuem para a tomada de decisões. Não se pode resumi-lo em poucas frases.

RESENHA – Por que tomamos decisões ruins a respeito do dinheiro? O que pode ser feito para melhorá-las?

KAHNEMAN – [ri] Como tomar decisões boas a respeito do dinheiro é uma questão altamente especializada. Fala-se em “alfabetização financeira”. Em sua maioria, as pessoas são analfabetos financeiros. Se a pergunta se refere aos analfabetos financeiros e por que tomam decisões ruins, eu diria que é porque não têm conhecimento suficiente para tomar decisões melhores. Não é intuitivamente óbvio que fundos de índice possam ser um investimento melhor do que fundos de gestão ativa. É algo que as pessoas financeiramente alfabetizadas sabem – não todas, mas muitas – e que os analfabetos financeiros não sabem. Portanto, quando entregues a si próprias as pessoas tomam decisões ruins menos por causa de maus conselhos e mais por causa de sua ignorância. Esse é um problema pequeno, acho eu.

Parece que, quando as pessoas pensam a respeito do dinheiro, elas o colocam em varias categorias diferentes e tratam cada categoria de modo muito diferente. É isso que chamamos de contabilidade mental. Em termos mentais, ha um orçamento e a pessoa se preocupa com as alocações a partir do seu orçamento. Isso pode levar as vezes a consequências absurdas, mas em geral a contabilidade mental e um instrumento de autocontrole

RESENHA – Poderia explicar o que o senhor chama de “contabilidade mental” e seus efeitos nas decisões sobre o dinheiro?

KAHNEMAN – Parece que, quando as pessoas pensam a respeito do dinheiro, elas o colocam em várias categorias diferentes e tratam cada categoria de modo muito diferente. É isso que chamamos de contabilidade mental. Em termos mentais, há um orçamento, e a pessoa se preocupa com as alocações a partir do seu orçamento. Isso pode levar às vezes a consequências absurdas, mas em geral a contabilidade mental é um instrumento de autocontrole. Você tem um orçamento determinado e suas decisões respeitam esse orçamento. Pode dar certo. Não é de todo ruim, embora possa levar a decisões completamente ridículas às vezes. Muito se escreveu a respeito das decisões ridículas e menos a respeito das vantagens da contabilidade mental. Isso é muito abstrato e, portanto, eu deveria lhe oferecer outro exemplo.

Descobriu-se, por exemplo, que a probabilidade de que as pessoas sairão de casa para assistir a uma partida de beisebol em um dia de mau tempo ou muito trânsito é maior quando compraram os ingressos do que quando possuem os mesmos ingressos mas não tiveram de pagar. Esse é um exemplo de contabilidade mental. Você já pagou, mas quer receber algo em troca do dinheiro que desembolsou. Quando pensamos a respeito disso racionalmente, do ponto de vista da economia racional, não faz sentido. Você já gastou o dinheiro e já arcou com o custo, de modo que não deveria se importar. Na verdade, quando as pessoas gastaram com o intuito de receber algo, elas querem realmente recebê-lo. A contabilidade mental funciona assim.

RESENHA – O senhor acha que devemos confiar na intuição em geral?

KAHNEMAN – Essa pergunta é muito, mas muito geral. Podemos confiar na intuição em geral nas situações em que temos expertise. Não são poucas as situações em que temos expertise. De modo geral, é provável que dê para confiar na intuição quanto a quem não gosta da gente. É provável que a gente saiba bastante sobre isso, não com perfeição, mas temos intuições, e isso é porque temos expertise. Os xadrezistas podem confiar na intuição se jogaram milhares de partidas, mas os novatos não podem. Podemos confiar na intuição ao vivermos uma situação que conhecemos bem e que possui algumas regularidades que podemos aprender. Se aprendermos essas regularidades no ambiente, podemos confiar na intuição. É isso que acontece com os xadrezistas e com os motoristas. Dirigimos intuitivamente porque temos muita experiência, mas não é o caso na bolsa porque não há regularidade suficiente para que as pessoas tenham intuições válidas a respeito de quais ações vão subir e quais vão cair. As pessoas podem achar que tenham intuições, mas essas intuições não valem nada.

RESENHA – Há muitas evidências a respeito de decisões irracionais na economia. Por que as pessoas nem sempre tomam decisões boas?

KAHNEMAN – A primeira razão é que as pessoas operam num mundo sobre o qual sabem pouco. Por exemplo, no campo das decisões financeiras, a maioria das pessoas não sabe nada. Fala-se muito em psicologia e vieses cognitivos. Os vieses são a principal razão pela qual as pessoas erram, mas na verdade a ignorância e o desconhecimento são uma fonte muito importante de decisões ruins. Em outros campos, como entre empreendedores, seria pertinente perguntar se o otimismo excessivo é fonte de decisões ruins, porque excesso de otimismo ou deficiência de realismo leva muitos empreendedores e inventores a correr riscos que nem sabem que estão correndo. Não sabem que estão correndo esses riscos porque estão sendo otimistas. Não é fácil dizer se a decisão é ruim ou boa.

Claramente há muitas pessoas que correm riscos, e correm esses riscos porque não sabem o que estão fazendo. Se soubessem, não correriam esses riscos. Há muitas razões e muitos tipos de decisões ruins. Não há resposta simples a essa pergunta.

RESENHA – Poderia compartilhar sua opinião sobre experiência versus memória? Quando falamos de felicidade, como podemos maximizar nossa sensação de felicidade? Qual a relação entre metas e satisfação?

KAHNEMAN – Tenho de argumentar que há maneiras bem diferentes de se definir a felicidade. Talvez haja até três, mas as duas de que falo mais são, primeiro, que você pode estar feliz neste momento e, segundo, que você pode estar satisfeito quando pensa a respeito de sua vida. A satisfação com a vida é um tipo de felicidade e a experiência de vida em tempo real é outro tipo. Acontece que para ser feliz, de acordo com uma determinada definição, você não faz as mesmas coisas que faz quando quer ser feliz no momento e quando quer estar satisfeito com sua vida.

Para ser feliz no momento… a principal coisa que deixa as pessoas felizes no momento é social, é estar com pessoas que amam. É nesse momento que ficam muito felizes, sentem-se inteiramente felizes. Para estar satisfeitas com suas vidas, as pessoas querem realizar algo, querem ficar ricas, querem educar-se, querem ter êxito – trata-se de um conjunto muito diferente de critérios. Maximizam sua felicidade, a felicidade de sua experiência, e maximizam sua satisfação com você mesmo e com sua vida. Não é necessariamente a mesma coisa.

RESENHA – Como podem seus trabalhos acadêmicos impactar a vida das pessoas e o êxito das empresas?

KAHNEMAN – Estudo o julgamento e o processo decisório. Muita gente já estudou as mesmas coisas que eu. É disso que falávamos antes. Trata-se do efeito daquilo que agora se chama de economia comportamental e como arranjar as decisões que os indivíduos enfrentam de modo a maximizar a probabilidade de tomarem a decisão certa.

Acho que a psicologia pode ser muito útil para ajudar a planejar a experiência social. Darei um exemplo: quando as reformas econômicas fracassam, ou pelo menos têm menos êxito do que o esperado. A principal razão é que qualquer reforma gera vencedores e perdedores. Os perdedores lutam muito mais do que os potenciais vencedores. Os potenciais perdedores resistem mais às mudanças do que os potenciais vencedores. Em consequência disso, para obter qualquer resultado tem de se compensar os perdedores. Tipicamente o custo disso é alto, e tipicamente isso não é algo que os planejadores anteviram.

Esse é um exemplo da utilidade da consciência psicológica para ajudar os políticos e outros a pensar sobre as possíveis reações a suas medidas e as possíveis implicações de suas medidas quando interagem com os cidadãos.

RESENHA – Dado o funcionamento dos mercados financeiros e de capitais, quais as principais ideias produzidas pela teoria das perspectivas (prospect theory)?

KAHNEMAN – Temos algumas previsões sobre os mercados e, de modo geral, por exemplo, a prospect theory foi usada para explicar por que é mais arriscado investir na Bolsa e por que o retorno do investimento em ações é maior do que o retorno dos investimentos menos arriscados. Mesmo assim, pode ser pouco razoável se for levada em conta apenas a distribuição dos riscos. Há mais evolução do risco no mercado acionário quando o indicador é o prêmio de risco. Há mais risco, e isso pode ser explicado pelo que chamamos de redução do prejuízo. Reduzir prejuízos é muito importante nas decisões dos investidores pessoas físicas, sobretudo pessoas ricas. Na hora de decidir, tendem a se preocupar muito mais com perdas do que com ganhos. 

Temos algumas previsões sobre os mercados e de modo geral, por exemplo, a prospect  theory foi usada para explicar por que e mais arriscado investir na Bolsa e por que o retorno do investimento em ações é maior do que o retorno dos investimentos menos arriscados. Mesmo assim, pode ser pouco razoável se for levada em conta apenas a distribuição dos riscos.

Isso faz muito mais sentido se você não for rico, porque pode ser arruinado por prejuízos. Mesmo as pessoas muito ricas preocupam-se mais com perdas potenciais do que com bons ganhos potenciais, especialmente quando esses ganhos acabam não maximizando seus lucros. Alguém que vise à maximização da riqueza dará pesos mais ou menos iguais a ganhos e perdas. A maioria, porém, tende a dar muito mais peso, talvez duas vezes mais, a perdas do que a ganhos em suas decisões. Isso influencia tanto o mercado quanto as decisões individuais.

RESENHA – O que é “racionalidade limitada” exatamente? Como os limites da racionalidade afetam o funcionamento dos mercados financeiros e de capitais?

KAHNEMAN – Sabe, não sou especialista em assuntos financeiros. Não posso responder com exatidão. A pergunta vai além do meu conhecimento específico. Mas a racionalidade limitada significa simplesmente que as pessoas não necessariamente maximizam suas oportunidades. As pessoas não investem melhor porque custa caro identificar a melhor solução.

A tradição da racionalidade limitada difere bastante do tipo de trabalho com o qual estive envolvido. Leva a um rumo diferente. Os economistas que refletiram sobre a racionalidade limitada estavam enfocando as limitações da memória e da busca. Nós pensamos em termos de vieses.

RESENHA – Cada vez mais os mercados financeiros são movidos por algoritmos e coisas do gênero. O senhor acha que alguns dos erros que cometemos frequentemente ao tomar decisões financeiras por causa de nossos vieses ou de falhas psicológicas podem ser administradas ou mitigadas por essas máquinas? Ou acha que as máquinas simplesmente repetem os erros cometidos pelos seres humanos?

KAHNEMAN – Não, não estou convicto de que as máquinas repitam os erros humanos. As máquinas utilizam big data. O sistema financeiro gera uma quantidade enorme de dados. Alguns dados são de longo prazo, e alguns são de curto prazo – tão curto quanto um microssegundo, em muitos casos. Não há dúvida de que não estão meramente repetindo os erros humanos.