Comparação do risco-retorno do IFIX com IBOVESPA, IDIV, SMLL e IMOB 2017-12-19T19:25:24+00:00

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ARTIGO TÉCNICO

Comparação do risco-retorno do IFIX com IBOVESPA, IDIV, SMLL e IMOB

1. Introdução

Imóveis e ações de companhias são modalidades de investimentos seculares e tradicionais no mundo todo. Embora ambos coloquem-se como alternativas para investidores de diversos perfis, é notório que o investimento em imóveis é mais popular do que o investimento em ações e, muitas vezes, destino das poupanças daqueles investidores mais conservadores, enquanto a Bolsa de Valores é a preferida dos menos conservadores.

Os dois segmentos, além de se complementarem, apoiam-se amplamente. Há no mercado financeiro diversos títulos lastreados em empreendimentos ou negócios imobiliários. Em 1960, nos Estados Unidos da América, foram criados os primeiros fundos de investimento com o propósito de alocar os recursos dos cotistas em empreendimentos imobiliários (imóveis e outros ativos com lastro imobiliário). Tais fundos, chamados de REIT (Real Estate Investment Trust), permitem que investidores comprem valores mobiliários (cotas de fundos) que representam a fração ideal de um patrimônio alocado em empreendimentos imobiliários. Portanto, os REIT são instrumentos que misturam características de imóveis com características de ações, inclusive sendo passíveis de negociação na Bolsa de Valores, assim como ações de companhias abertas.

Esta junção do mercado imobiliário com o mercado de capitais gerou uma classe de ativos com características singulares, que oferece retornos irreplicáveis por outros ativos (Lee & Stevenson, 2005) e pouco ligados aos retornos das ações (Downs et al., 2003). Tais fatores alçaram os REIT à terceira classe de ativos mais importantes do mercado estadunidense, logo após ações e debêntures (Brounen & De Koning, 2012). O modelo dos REIT já foi replicado em diversos países, tendo chegado ao Brasil em 1993, quando foram instituídos os FII (Fundos de Investimento Imobiliário) pela Lei 8.668/93.

Em julho de 2017, o valor de mercado dos 195 REIT listados na Bolsa de Valores de Nova York (NYSE) somava US$ 1 trilhão (há, ainda, REIT listados em outras Bolsas, além de REIT não listados). No Brasil, na mesma época, havia 130 FII listados na B3 S.A. – Brasil, Bolsa e Balcão (B3), com valor de mercado total de R$ 38,8 bilhões. Se considerados também os não listados na B3, a indústria nacional era composta por 335 FII, com patrimônio líquido total de R$ 67 bilhões. A Figura 1 ilustra a evolução do mercado brasileiro nos últimos dez anos.

  • Figura 1. Evolução dos FII.

Nota: Eixo da esquerda indica o PL dos fundos (em R$ milhões) e o eixo da direita indica o número de fundos (em quantidade).

Fonte: Anbima

Nos últimos dez anos, o número de FII registrados na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) cresceu 4,7 vezes, e o patrimônio líquido desses veículos de investimento cresceu 21 vezes. Muitos fatores (econômicos e não econômicos) podem explicar a evolução do mercado. Não é pretensão deste estudo determiná-los, mas cabe ressaltar os esforços institucionais que contribuíram. A Comissão de Valores Mobiliários editou três instruções para aperfeiçoar a regulamentação dos FII: (i) a 472/2008, que regulamentou a constituição e administração dos FII, substituindo a Instrução 205/1994; (ii) a Instrução 516/2011, que dispôs sobre demonstrações financeiras desses fundos e substituiu a Instrução 206/1994; e (iii) a Instrução 571/2015, que reformou a Instrução 472/2008 (ainda vigente, com dispositivos alterados). Em 2013, a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais (ANBIMA) incluiu, em seu código de regulação e melhores práticas para os fundos de investimento, o anexo III, que trata dos FII. No mesmo ano, a B3 criou o Índice de Fundos de Investimentos Imobiliários (IFIX).

De acordo com a regulamentação vigente à época da elaboração do presente estudo, os FII podiam investir em imóveis e valores mobiliários com lastro no mercado imobiliário ou de emissão de empresas cujo objeto social seja pertinente, como Ações, Debêntures, Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI), Letras Hipotecárias (LH), Letra de Crédito Imobiliário (LCI), Letra Imobiliária Garantida (LIG), Certificados de Potencial Adicional de Construção (CEPAC), dentre outros. O rol completo dos ativos permitidos aos FII consta do artigo 45 da Instrução CVM 472/2008. Insta ressaltar que não existe determinação de alocação mínima em imóveis, sendo permitido que um FII invista os recursos dos seus cotistas apenas em valores mobiliários, desde que assim previsto no regulamento do fundo.

Com isso é possível que um FII, que é um ativo de renda variável, aloque o patrimônio dos cotistas exclusivamente em títulos de renda fixa, enquanto outros FII investem precipuamente em imóveis ou em ambos. O mesmo ocorre no mercado estadunidense, onde os REIT são classificados entre equity, mortgage e hybrid.  No Brasil, são comumente chamados de ‘fundos de tijolos’ ou ‘fundos de papéis’. O Índice de Fundos Imobiliários (IFIX) reflete o comportamento de FII de todos os tipos, sendo certo que parcela relevante da sua composição é formada por fundos que investem em títulos de renda fixa com lastro imobiliário.

2. Índice de Fundos Imobiliários

O IFIX é um índice de retorno total que mede o desempenho médio das cotações de uma carteira teórica de fundos de investimento imobiliário, composta pelos mais negociados na B3 e ponderada pelo valor de mercado dos fundos componentes. Apesar de ter sido criado em 2013, o seu cálculo é retroativo, tendo iniciado em 30/12/2010 com cotação inicial de 1.000 pontos. A existência de um índice de referência contribui para que os participantes do mercado possam balizar a performance de seus investimentos, além de permitir a elaboração de estudos comparativos, como o presente. A Figura 2 demonstra a evolução do IFIX, desde 30/12/2010.

  • Figura 2. Evolução da pontuação do IFIX.

Nota: Base 1.000 em 30/12/2010.

Fonte: Elaborada pelos autores.

3. Objetivo deste estudo e sua contribuição

Embora as dimensões do mercado nacional sejam bem diminutas e a legislação, mais restritiva, quando comparadas às do mercado estadunidense, os estudos acadêmicos demonstram semelhanças entre FII e REIT, tal como visto em Scolese et al. (2015) e Yokoyama, Sarlo Neto e Cunha (2016), que identificaram características híbridas dos FII, situados entre a renda fixa e a renda variável. No que tange ao risco, Moraes e Serra (2017) notaram que o tamanho dos fundos é fator determinante da diminuição do risco diversificável, característica também aderente à dos REIT dos Estados Unidos e europeus, conforme testado por Gyourku e Nelling (1996) e Byrne e Lee (2003).

A natureza dos REIT / FII e o seu comportamento em comparação com outras classes de ativos é problemática recorrente de pesquisadores. No presente estudo, objetiva-se comparar o comportamento dos retornos do Índice de Fundos Imobiliários (IFIX) com outros índices representativos do mercado acionário. De maneira geral, busca-se comparar duas classes de ativos: FII e Ações. Visando entender se há semelhança entre os FII e determinados segmentos das ações listadas na B3, essas serão estratificadas. Destarte o retorno e o risco dos FII, serão comparados aos dos seguintes índices: Índice Bovespa (IBOVESPA ou IBOV), Índice de Dividendos (IDIV), Índice Small Caps (SMLL) e Índice Imobiliário (IMOB).

O Índice Bovespa (IBOVESPA) é um índice amplo e principal referencial da Bolsa de Valores brasileira. A sua comparação visa entender o comportamento do IFIX em relação ao mercado de ações como um todo.

O Índice de Dividendos (IDIV) é um referencial composto por ações das companhias com maior dividend yield dos últimos vinte e quatro meses. A comparação do IFIX com o IDIV justifica-se, pois, os fundos de investimento imobiliário são obrigados, por lei, a distribuir 95% do seu lucro líquido, a título de rendimentos, a cada semestre (a maioria distribui mensalmente), o que faz deles bons pagadores de dividendos.

O Índice Small Caps (SMLL) é composto por ações de companhias de menor capitalização de mercado, característica também presente nos fundos de investimento imobiliário que, salvo poucas exceções, apresentam capitalização inferior a R$ 1 bilhão.

O Índice Imobiliário (IMOB) é composto por ações de companhias que atuam na exploração de imóveis e construção civil, mesmo macro setor, em tese, da atuação dos FII.

Tais comparações visam melhorar a compreensão das características dos FII, o que contribui para que investidores, administradores, analistas, gestores de recursos, assessores de investimentos, reguladores, jornalistas e quaisquer interessados possam ancorar expectativas e planejar a melhor utilização do produto, para os fins a que se destina. Estudos semelhantes já foram realizados no exterior, como a experimentação da adequabilidade do modelo de fatores de Fama e French (1993) aos REIT, estudo realizado por Peterson e Hsieh (1997), que observaram a aplicabilidade do modelo de três fatores, mas apenas aos equity REIT. Niskanen e Falkenbach (2010) compararam o comportamento de REIT europeus com indicadores do mercado de ações de países europeus e dos Estados Unidos, tendo concluído que os REIT europeus são altamente correlacionados com as ações das Bolsas daquele continente, especialmente com as de baixa capitalização e de valor (small caps and value stocks) e menos, mas positivamente correlacionados, com ações listadas nos mercados dos Estados Unidos e Ásia. Em análise mais específica, Chan, Chen e Wang (2013) notaram que o comportamento dos REIT no primeiro dia de negociação após um IPO é diferente do das ações em mesma situação. A análise abrangeu quatorze países, e os resultados indicaram que o retorno dos REIT no primeiro dia de negociação é inferior ao das ações e, não raro, negativo.

4. Período de Análise e Metodologia

O período de análise foi delimitado entre janeiro de 2011 e agosto de 2017, de forma a compreender toda a evolução do IFIX, desde a sua origem até a realização do presente estudo. Foram utilizados dados mensais de preços de fechamento dos índices, coletados no sistema de informações Economatica®.

Embora os índices analisados tenham liquidez diária, não se pode dizer o mesmo sobre os ativos que os compõem, o que reflete na cotação dos referidos índices. Para evitar eventuais vieses para baixo nas medidas de risco, foi utilizada a periodicidade mensal, uma vez que o aumento da mesma favorece a eliminação de tal viés (Serra & Martelanc, 2013).

A metodologia consiste em análise comparativa do comportamento das classes de ativos por meio da aplicação de testes estatísticos de igualdade de médias para dados emparelhados e de igualdade de variância (paramétricos ou não paramétricos, conforme o caso).

5. Resultados

5.1 Estatísticas Descritivas

A Tabela 1 apresenta a comparação dos retornos (medidos pelo logaritmo natural) e dos riscos (medidos pelo desvio padrão do logaritmo natural dos retornos), além da correlação entre os índices analisados. Os mesmos dados de média e desvio padrão são ilustrados na Figura 3.

  • Tabela 1. Média, desvio padrão e correlação entre os índices.

Média Desv. Pad. IFIX IBOV IDIV SMLL
IFIX 0,92% 2,81%
IBOV 0,03% 5,89% 0,441
IDIV 0,52% 6,46% 0,516 0,880
SMLL 0,10% 5,64% 0,487 0,865 0,805
IMOB -0,42% 7,02% 0,336 0,803 0,686 0,854

Fonte: Elaborada pelos autores.

No período analisado, a correlação do IFIX com todos os índices de ações analisados foi baixa e positiva. A correlação mais alta (0,516) deu-se com o Índice de Dividendos (IDIV) e a mais baixa (0,336), curiosamente, com o Índice Imobiliário (IMOB), pois, a princípio, ambos (IFIX e IMOB) tratam de ativos do mesmo macro setor. Todas as correlações foram estatisticamente significantes a 0,010. A baixa correlação entre fundos de investimento imobiliário e ações indica que não há redundância na combinação das classes de ativos, o que pode ser interessante, do ponto de vista da diversificação. Serra, Moraes e Fávero (2017) identificaram um efeito de diversificação extraclasse quando da combinação de ações e FII em carteiras. Por outro lado, como esperado, as correlações entre os diversos índices de ações são altas e positivas (todas acima de 0,686). Yokoyama, Sarlo Neto e Cunha (2016) também concluem pelo ganho em diversificação proveniente da inclusão de FII em carteiras de diferentes classes de ativos.

Aparente e economicamente, os fundos imobiliários, representados pelo IFIX, obtiveram retorno superior aos diversos índices de ações, com risco, também aparentemente, menor. O índice de ações que apresentou retorno mais próximo ao IFIX foi o IDIV, que rendeu, em média, 0,52% ao mês, enquanto o IFIX rendeu, em média, 0,92% ao mês. Em relação ao risco, o índice de ações com menor volatilidade foi o SMLL, que apresentou desvio padrão de 5,64% no período ao lado do IBOVESPA (5,89%), enquanto a volatilidade do IFIX foi consideravelmente inferior, com desvio padrão de 2,81%. Tais dados são apresentados na Figura 3.

  • Figura 3. Média e desvio padrão dos índices analisados.

Fonte: Elaborada pelos autores.

5.2. Análises Estatísticas

5.2.1. Análise do Período Todo

Os resultados econômicos apresentados na Tabela 1 não encontram respaldo na teoria tradicional de finanças (Markowitz, 1952; Sharpe, 1964; Lintner, 1965; Black, 1972) que prescreve que ativos com maior risco deveriam ter expectativa de maior retorno, em compensação pelo maior risco. Por outro lado, sabe-se que nem sempre os resultados econômicos resistem aos testes estatísticos. Desta forma, procederam-se os testes de igualdade de médias e de igualdade de variâncias para validar (ou não) as diferenças estatísticas entre os retornos e os desvios-padrão históricos.

Inicialmente, verificou-se a normalidade das distribuições de retornos para a adequação dos testes a serem aplicados. Caso as distribuições sejam normais, aplica-se os testes paramétricos e, caso as mesmas não sejam normais, aplica-se os testes não paramétricos.

O teste Kolmogorov-Smirnov (KS), cuja hipótese nula é a da normalidade da distribuição, indica a não rejeição da hipótese de que as distribuições são normais (todos os valores p foram superiores a 0,100). Portanto, os testes aplicados foram, para igualdade das médias: teste t bicaudal para dados emparelhados e para igualdade de variância; teste f, ambos testes paramétricos. Os resultados estão apresentados na Tabela 2.

  • Tabela 2. Média, desvio padrão, teste de normalidade, teste de igualdade de média e teste de igualdade de variância.

IFIX IBOV IDIV SMLL IMOB
Média 0,92% 0,03% 0,52% 0,10% -0,42%
Desvio Padrão 2,81% 5,89% 6,46% 5,64% 7,02%
Teste de Normalidade 0,855 0,900 0,950 0,464 0,964
Teste de Igualdade de Média 0,136 0,529 0,141 0,076
Teste de Igualdade de Variância 0,000 0,000 0,000 0,000

Nota: 80 observações. Teste de normalidade: KS. A linha Teste de Igualdade de Média refere-se ao teste entre o IFIX e o índice da referida coluna. Idem para a linha Teste de Igualdade de Variância. Teste de igualdade de média paramétrico: teste-t bicaudal para dados emparelhados. Teste de igualdade de variância paramétrico: teste-f.

Fonte: Elaborada pelos autores.

Observa-se, nos resultados apresentados na Tabela 2, que os retornos médios dos diversos índices (IBOV, IDIV, SMLL e IMOB) não são estatisticamente diferentes do retorno médio do IFIX (a 0,050). Portanto, pode-se dizer que o IFIX teve retorno médio igual aos outros quatro índices. Sendo igual ao retorno médio, invocando a teoria tradicional de finanças, seria esperado que os riscos também fossem iguais. Os testes de igualdade de variância indicaram que o IFIX tem desvio-padrão significativamente menor que o desvio-padrão de cada um dos outros quatro índices analisados. Resultado ainda divergente do que preconiza a teoria tradicional de finanças, o que instiga a esmiuçar o estudo em busca da melhor compreensão dos dados e da natureza das classes de ativos.

5.2.2. Análise dos períodos de alta do mercado e análise dos períodos de baixa do mercado

No período analisado o comportamento do IBOVESPA parece atípico, uma vez que teve retorno médio estatisticamente igual a zero, ou seja, não recompensou os investidores pelo risco assumido, inclusive apresentando um prêmio de mercado negativo (o investidor não teria sido remunerado nem a taxa livre de risco). Embora não se possa assegurar, é possível que tal anomalia seja decorrente das instabilidades políticas e econômicas vivenciadas em grande intensidade no País, no mesmo período. Isto considerado, foram analisados os períodos de alta do mercado e os períodos de baixa do mercado separadamente, tal como Serra, Felsberg e Fávero (2017) fizeram na análise dos dez anos do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE). Para tanto, considerou-se (i) como períodos de alta aqueles meses em que o IBOVESPA teve retorno positivo; e (ii) como períodos de baixa aqueles meses em que o IBOVESPA teve retorno negativo.

A Tabela 3 apresenta os resultados para os meses de alta (Painel A) e para os meses de baixa (Painel B). Analisou-se, para esses subperíodos, apenas o retorno. A análise do desvio-padrão foi feita apenas para o período todo.

  • Tabela 3. Média, desvio padrão, teste de normalidade e teste de igualdade de média.

Painel A: Meses de Alta
IFIX IBOV IDIV SMLL IMOB
Média 1,82% 4,81% 4,80% 4,05% 4,16%
Desvio-Padrão 2,47% 3,82% 5,10% 4,15% 5,51%
Teste de Normalidade 0,919 0,544 0,851 0,636 0,826
Teste de Igualdade de Média 0,000 0,000 0,001 0,009

Nota: 39 observações. Referência para alta é o IBOV. Teste de normalidade: KS. A linha Teste de Igualdade de Média refere-se ao teste entre o IFIX e o índice da referida coluna. Teste de igualdade de média paramétrico: teste-t bicaudal para dados emparelhados.

Painel B: Meses de Baixa
IFIX IBOV IDIV SMLL IMOB
Média 0,06% -4,53% -3,55% -3,66% -4,76%
Desvio-Padrão  2,86%  3,33%  4,77% 4,10% 5,35%
Teste de Normalidade 0,484 0,079 0,444 0,171 0,959
Teste de Igualdade de Média 0,000 0,000 0,000 0,000

Nota: 41 observações. Referência para baixa é o IBOV. Teste de normalidade: KS. A linha Teste de Igualdade de Média refere-se ao teste entre o IFIX e o índice da referida coluna. Teste de igualdade de média paramétrico: teste-t bicaudal para dados emparelhados. Teste de igualdade de média não paramétrico (entre IFIX e IBOV): Wilcoxon.

Fonte: Elaborada pelos autores.

Aplicaram-se os testes paramétricos para os testes de igualdade de média, exceto para a comparação entre IFIX e IBOV nos meses de baixa, pois a distribuição dos retornos do IBOV para esses meses de baixa não apresentou normalidade a 0,100. Os resultados da Tabela 3 indicam que o IFIX, que apresentou menor risco do que os quatro índices analisados, comportou-se como um ativo com menor risco: (a) subiu menos do que os referidos índices nos meses de alta (Painel A indica a significância estatística das diferenças de médias); e (b) caiu menos do que os referidos índices nos meses de baixa (Painel B indica a significância estatística das diferenças de médias).

Tal comportamento é compatível com a teoria tradicional de finanças, do ponto de vista da análise do risco-retorno.

5.3. Análise de Robustez

Como houve meses em que o IBOVESPA caiu, mas o IFIX subiu, e vice-versa, pensou-se em repetir a análise dos meses de alta separadamente dos meses de baixa, porém, considerando: (i) como meses de alta os meses em que ambos os índices subiram; e (ii) como meses de baixa os meses em que ambos os índices caíram.

Foram 30 meses em que ambos os índices subiram (comparativamente a 39 em que apenas o IBOV subiu) e 17 meses em que ambos os índices caíram (comparativamente a 41 em que apenas o IBOV caiu).

  • Tabela 4. Média, desvio-padrão, teste de normalidade e teste de igualdade de média.

Painel A: Meses de Alta
IFIX IBOV
Média 2,72% 5,11%
Desvio-Padrão 1,98% 3,81%
Teste de Normalidade 0,588 0,848
Teste de Igualdade de Média 0,000

Nota: 30 observações. Referência para alta: ambos os índices. Teste de normalidade: KS. A linha Teste de Igualdade de Média refere-se ao teste entre o IFIX e o IBOV. Teste de igualdade de média paramétrico: teste-t bicaudal para dados emparelhados.

Painel B: Meses de Baixa
IFIX IBOV
Média -2,65% -4,69%
Desvio-Padrão 2,28% 3,17%
Teste de Normalidade 0,480 0,522
Teste de Igualdade de Média 0,006

Nota: 17 observações. Referência para baixa: ambos os índices. Teste de normalidade: KS. A linha Teste de Igualdade de Média refere-se ao teste entre o IFIX e o IBOV. Teste de igualdade de média paramétrico: teste-t bicaudal para dados emparelhados.

Fonte: Elaborada pelos autores.

Os resultados da Tabela 4 corroboram os resultados da Tabela 3, indicando que o IFIX: (i) subiu menos do que o IBOV nos meses de alta; e (ii) caiu menos do que o IBOV nos meses de queda, comportando-se como um ativo com menor risco.

6. Considerações Finais

Sendo os Fundos de Investimento Imobiliário uma classe de ativos diferente da classe de ações, com características, do ponto de vista do retorno, irreplicáveis por outros ativos (Lee & Stevenson, 2005) e pouco ligados aos retornos das ações (Downs et al., 2003), objetivou-se, neste artigo, comparar o comportamento dos retornos do Índice de Fundos Imobiliários (IFIX) com o de quatro índices de ações: Índice Bovespa (IBOVESPA), Índice de Dividendos (IDIV), Índice Small Caps (SMLL) e Índice Imobiliário (IMOB). O período de análise é de 30/12/2010 (início do IFIX, retroativamente) até 31/08/2017 (realização deste estudo).

A análise econômica indicou, no período analisado, a superioridade do IFIX em relação aos quatro índices de ações analisados tendo em vista que aquele apresentou: (i) menor risco; e (ii) maior retorno. Tal resultado é contrário ao esperado pela teoria tradicional de finanças.

A análise estatística, por sua vez, indicou que o menor risco do IFIX em relação aos quatro índices é estatisticamente suportado, porém, o retorno médio do IFIX é estatisticamente igual ao retorno médio dos quatro índices, individualmente.  Embora menor, a desconformidade em relação à teoria tradicional de finanças se mantém, pois, ativos com retornos semelhantes deveriam apresentar riscos semelhantes.

Tendo o período de análise sido atípico, do ponto de vista da própria teoria tradicional de finanças, com prêmio pelo risco negativo (tendo em vista que o IBOV teve retorno estatisticamente igual a zero), analisou-se os meses de alta separadamente dos meses de baixa.

Essa análise indicou que o IFIX comportou-se como o esperado para um ativo com menor risco: (i) subiu menos nos meses de alta do mercado; e (ii) caiu menos nos meses de baixa do mercado, comparativamente aos quatro índices de ações. A combinação de meses de alta e de baixa no período analisado resultou no comportamento atípico quando analisado o período todo.

Conclui-se que os fundos de investimento imobiliário, mesmo sendo ativos de renda variável listados em Bolsa, apresentaram comportamento distinto do das ações, notadamente no que tange ao risco, consideravelmente inferior comparativamente aos vários índices testados. Já os retornos se diferem, quando a análise é esmiuçada, demonstrando que o conservadorismo da volatilidade reverbera nos retornos, mais modestos nos momentos de valorização das ações e menos severos nos períodos de queda.

Estudos futuros podem analisar se as mudanças na composição das carteiras dos índices poderiam alterar as conclusões aqui apresentadas. Sabe-se que existe um retorno anormal pela inclusão de ações no Ibovespa, que é temporário (Serra et al., 2011), em linha com a “price pressure hypothesis” (Harris & Gurel, 1986, entre outros). Do ponto de vista do retorno mensal médio (utilizado neste estudo) no longo prazo, por ser um efeito temporário, não se antevê impactos. O impacto possível no retorno seria no desbalanceamento de quantidade de entrantes nos diversos índices analisados ou na diferença de comportamento de preços nos ativos entrantes nos demais índices (não se tem conhecimento de estudos desse tipo no mercado brasileiro). Porém, pode haver algum impacto no desvio-padrão, que, pelo fato de se ter trabalhado com retornos mensais, entende-se seja minimizado. Porém, embora o efeito temporário nos preços das ações entrantes no Ibovespa seja inferior a um mês (Serra et al., 2011), os rebalanceamentos das carteiras ocorrem bem na mudança de meses, podendo haver algum resquício de impacto a ser identificado.

7. Referências

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Autores

Arthur Vieira de Moraes
Arthur Vieira de Moraes
Mestre em administração com ênfase em finanças pela FECAP, pós-graduado em produtos financeiros e gestão de risco pela FIA, graduado em direito pela UNIP, professor da B3 Educação, FECAP e FIA.
Ricardo Goulart Serra
Ricardo Goulart Serra
Pós-doutor e doutor pela FEA/USP, MBA pelo INSPER e engenheiro pela POLI/USP. Professor pesquisador do PPGA da FECAP, professor de pós-graduação lato sensu do INSPER, professor da graduação da USP. Coautor do livro Valuation: Guia Fundamental, Atlas, 2014